O Sonho de Tia Regina
by: marciarmguimarães
REG.PROP. INTELECTUAL: 142.131
ISBN 956-8230-11-4
Nota da Autora:
Tia
Regina, uma mulher que nunca teve filhos, e admira seus sobrinhos, como se estes
fossem seus.
Esta
é uma história narrada com grande admiração por um (a) de seu sobrinho (a).
Ela
conta histórias a seus sobrinhos, e a cada uma encerra um ensinamento.
Uma
mulher consciente e madura que sonha com a felicidade. Considerada por todos
como louca, por seguir suas intuições.
Porém
ela prova que ser sonhadora com os pés no chão é uma forma de vencer e consequentemente
ter seus sonhos realizados.
Indico
essa obra a todos aqueles que vivem a vida em preto e branco, deixando se levar
por momentos tão sofridos aos quais encaramos nos dias de hoje.
Palavras da autora:
Escrever,
um sonho que eu tinha desde muito jovem, porém quando queremos uma coisa, temos
que persistir e levar adiante este desejo.
Assim
que tomei coragem e dei inicio a subida dessa escada, e conseguindo apoio de
minha mãe, fã incondicional.
O
sonho foi realizado.
No
natal de 2003, presenteei aos amigos e familiares um exemplar artesanal desta
historia.
E no
dia 31 de dezembro deste mesmo ano desembarquei no aeroporto de Santiago, e lá
encontrei uma editora, a qual editou meu livro em menos de um ano. O lançamento
foi um êxito! Com quatro edições esgotadas.
Viajei
convidada por quase toda América do Sul e parte da Europa, para divulgação
deste livro. Fiz grandes amizades nestes
países: Uruguai, todo o Chile, boa parte da Argentina,
Peru,
Tarija-Bolivia, Suíça, Itália e França.
Queridos
leitores, sonhar com os pés no chão faz parte de nossas realizações.
Agradecimentos:
Á
minha amada mãe, falecida no dia 21 de dezembro de 2009. Que estará eternamente
presente em minha vida, torcendo para que eu siga essa jornada, com toda
felicidade que ela sempre me desejou.
Aos
meus queridos amigos e confidentes, pela atenção e paciência de lerem a cada
capítulo. Torcendo e incentivando para sua publicação.
Obrigada
Kátia Pérola por sua admiração e força, pois se não fosse você, este livro
estaria arquivado aqui no Brasil.
A
minha amada família e especialmente a Kelly
Bandeira e Sophia Guimarães sobrinhas queridas, que criaram esta página e esse blog para que fosse publicado este
livro.
.
Capítulo ZERO
Tia Regina
Todos
criticavam tia Regina e seus sonhos, diziam que ela vivia no mundo da lua e
voando.
Em
realidade com ela aprendemos como um sonho pode ser realizado.
Hoje
voltando ao passado, quando ainda éramos crianças , me fazem brotar lágrimas
saudosas.
Tia
Regina é normal?
Perguntavam naquela época; eu também tinha
minhas duvidas!
Ela
não teve uma vida de rainha, passou por momentos amargos e sei que a fizeram
chorar, porem nunca deixou a peteca cair, sempre teve coragem de enfrentar o
monstro de olhos abertos, intuía o caminho e graças a sua intuição conseguiu
realizar o impossível para a maioria.
Provou
que ser sonhadora era normal, que as fantasias fazem parte de nossa felicidade.
Seu
lema era: O show tem que continuar!
Contarei
sobre essa personagem e meus melhores momentos junto a ela.
Capitulo zero
Oh! Quantas saudades de
Minha tia Regina
Quando
nasci ela estava com 35 anos. Magra, baixa, um corpo tipo violão, por ter uma
cintura fina e quadril grande, pele clara, pernas de atriz italiana, cabelos
ruivos, olhos verdes, nariz afilado e lábios grossos, não era uma beleza
extraordinária tipo Sofia Loren ou Gina Lollobrigida, tinha um encanto próprio,
distinta, luminosa, uma pessoa transparente, sem papas na língua.
Na
realidade, estava sempre contente e ria com nossas peraltices, só havia uma
coisa que ela virava fera, era quando alguém nos contrariava isso ela jamais
permitia.
Capitulo um
Gente é Gente e Bicho é
Bicho
Meu primo estava com três anos e foi com tia
Regina numa pracinha em Copacabana, ele adorava animais, quando viu uma senhora
com um cachorro, correu para tocá-lo e a mulher se afastou não permitindo
brincadeiras. Indignada tia Regina perguntou se o bichinho mordia, a resposta
foi não, deixando bem claro que não queria que ninguém tocasse em sua mascote,
uma demonstração de egoísmo fazendo a gentil tia Regina sair do sério. Ela o
pegou no colo e disse:
--
Vamos brincar no parque, este pobre cachorro não é brinquedo e sendo um animal
pode te transmitir doenças, você ainda e muito inocente para entender que gente
é gente e bicho é bicho.
A
senhora quase fulminou minha tia com um olhar de reprovação, esta, sabia
fazer-se de indiferente quando precisava, não sei como ela conseguia franzir a
boca de uma forma que assustava. Tia Regina adorava aos animais, a todos, não
considerava justo prende-los num minúsculo apartamento, privando-os de sua
liberdade natural, e disse:
_
Quando se ama de verdade a um animal não se cria em cativeiros, à maioria dos
seres humanos confunde suas emoções. Veja esta senhora, deve viver sozinha e
divide sua solidão com este pobre cachorro! Você sabe o que isto significa?
_ Perguntou
a meu priminho.
_
Não. – respondeu – correndo para o balanço e pediu a resposta.
_
Egoísmo. – ela respondeu em alto e bom tom.
_ O
que é egoísmo? – ele perguntou -
_ São
as pessoas que não sabem compartilhar.
_ E o
que compartilhar? – outra pergunta -
_Vou
te dar um exemplo: Imagine num aniversario, com muitas crianças e um bolo
pequeno, se é uma pessoa egoísta que reparte vai separar para ela o maior
pedaço.
_
Entendi, são as pessoas que sempre ficam com a maior parte só pra elas.
_Muito
bem! Exclamou!
Essa
era uma de suas tantas qualidades, ela falava com as crianças de igual para
igual, entendia que tínhamos potencial.
Capítulo dois
O Sonho
Eu e
meus primos não entendíamos por que ela nunca teve um filho e jamais se casara.
Sendo uma mulher bonita, inteligente e cortejada por todos aonde chegasse.
Jamais
nos negava nada, e somente hoje, aos meus trinta e cinco anos. Entendo que ela
sabia dizer NÃO com desenvoltura. Porque a sua maneira, sempre a obedecíamos.
Cresci
ouvindo e admirando suas historias, eram as horas mais felizes! E quando lhe
perguntávamos por que não tinha se casado ou tido filhos, ela nos respondia:
_
Espero a meu príncipe encantado!
_
Você já o conhece? Onde está ele?
_ Ele
está em algum lugar deste planeta, inteligente, maduro, médico e escritor, seu
rosto tem fortes linhas como de um grego, olhos verdes, cabelos grisalhos e
encaracolados, voz grossa como a de um locutor de rádio, fala espanhol e tem
1:90 de altura!
_ É rico?
_ Tem uma situação financeira estável, mas
isso não me importa!
_Ele é velho?
_ Não
é mais novo que eu, três filhos e viúvo. Conhecemo-nos de vidas passadas.
Essa
era uma de suas peculiaridades: esotérica, metade bruxa e metade cigana.
Adorava fantasiar, viajar, dançar, conversar e namorar a moda antiga, dizia ser
mais romântico. Seus sentimentos mudavam como o vento, mas eram intensos, assim
que sempre estava apaixonada, porque seu coração pertencia a Juan Carlos!
Um
senhor italiano amigo dela apelidou-a de banda e perguntávamos por quê? E ela
sorrindo nos respondia:
_
Quando passa uma banda, todos acompanham velhos, crianças, cachorros, assim sou
eu!
_ E
você adora né tia? – E seu grande amor, também é da banda?
_ Ele
e um pouco tímido, mas de um coração generoso, irradia luz!
_
Como é que sabe tanto a respeito dele? Vocês se conhecem e não quer nos contar?
Vai tia conte-nos a verdade!
Suspirou profundamente, levou a mão direita ao
coração, fechou os olhos, curvando a cabeça pra traz, fazendo voar seus longos
cabelos e disse:
_
Contarei a todos vocês: O verdadeiro amor é eterno de muitas vidas. E sei que
um dia ele aparecerá e me perguntará:
_
Regina Magalhães?
_
Sim, responderei.
Ele
me beijará longamente, nos casaremos e viajaremos pelo mundo ajudando crianças
carentes.
_ Ai
tia, você é louca?
_ Só
porque tenho um sonho? Sonhar não è loucura! Não se vive de sonhos, mas podemos
e devemos sonhar para viver. Se quisermos muito uma coisa imagine, entregue seu
desejo ao universo, sem que percebamos esta imagem vai se consolidando até que
se torna realidade.
_ Muito
bem, _ disse Claudinho: _Suponha que tenha notas baixas em matemática, não
estudo, sonhando com um dez na prova, porém quando me entregam o resultado,
Reprovado.
_Ah!
Isso é claro, vais tirar um bonito ZERO, temos que fazer a nossa parte, não se
sonha por sonhar. Se você estudar para as provas, sem bloqueios, sem medo e
conscientizando-se de sua capacidade, pensando positivamente, seu sonho sempre
se realizará. Quando eu estava no segundo ano ginasial, não tinha muito tempo
para estudar, precisava tomar conta de minhas irmãs. Tínhamos quatro provas ao
ano e precisávamos somar vinte pontos na média final, eu estava mal em ciências
e pedi ajuda a minha mãe, ela sem tempo me ensinava enquanto fazia o almoço.
Esta era a última prova do ano, estudei muito.
Na
minha sala de aula havia uma menina chamada Sueid, que sempre tirava as
melhores notas, nunca foi para a final.
Porem
no dia da entrega das provas de ciência o professor fez o maior suspense, e
disse:
_
Estou muito decepcionado com vocês, hoje inverterei o jogo e chamarei primeiro
as melhores notas, porem, reservei uma prova para comentar no final.
E
logo a primeira foi da Sueid com 7,5. Bem todas as provas foram entregues,
menos a minha! Tive vontade de sair correndo e nunca mais voltar a estudar,
pensava desesperada: _ Tirei zero!
Ate
que ele me chamou e pediu a todas as alunas que levantassem. E disse:
_
Regina Magalhães, eu reservei sua nota para o final:
_Tirei zero?Perguntei.
_ Não
minha querida, sua nota foi dez.
_
Dez?
_
Sim, acredite, hoje, ao chegar a casa fale com sua mãe, abrace-a e lhe
agradeça.
Não
pude controlar minhas lagrimas, fui cumprimentada por todas minhas colegas do
grupo.
Naquele ginásio todos me
admiravam por conhecer minha origem humilde, principalmente o professor Agras.
Neste dia ele nos contou que o sonho de sua mãe era que ele estudasse medicina,
e ele não tinha a menor vocação, assim que passou um bom tempo, enrolando a
pobre senhora, a qual estava muito doente, ao se inteirar de sua enfermidade,
resolveu empenhar-se, em passar na faculdade de medicina. Porém no dia do
resultado dos exames ao ver que havia passado, foi correndo dar a boa noticia a
sua mãe!
Ao
chegar, esta havia sofrido um infarto fulminante. Por isso ele nos incentivava
a estudar, acho que ele sempre se culpou.
Ah!
Minha doce tia Regina. Sabiamente aprendia as lições da vida! Eu adorava quando
ela dizia:_ Contarei uma historia _ Ela se sentava no sofá, deitávamos no seu
colo, acariciava nossos cabelos com suas
pequenas mãos e iniciava a narrativa.
Capítulo três
O Velho Rabugento
Era
uma vez, uma casa de dez quartos, e esta pertencia a um ancião que vivia
resmungando. Uma casa comum, mas que encerrava um grande mistério, um quarto de
frente ao do dono da casa.
Trinta
anos antes, ele havia enviuvado e convidou seu filho para morar no casarão.
Este desempregado com três filhos pequenos e contra a vontade de sua mulher
submeteu-se ao sacrifício de viver à custa do pai rabugento. O velho, logo no
primeiro dia de convivência, ordenou:
_
Ninguém pode entrar neste quarto.
A porta vivia trancada, a sete chaves.
Despertando uma grande curiosidade nos habitantes recém-chegados, dando asas a
imaginação, as mais absurdas, iniciando pelo casal, depois em seus filhos e
finalmente nos bisnetos.
Tiveram
que conviver e fantasiar suas curiosidades, afinal, um dia o pobre senhor,
viria a morrer e finalmente terminaria o pesadelo.
Passaram-se
os anos, e todos viviam à custa do pobre ancião, não trabalhavam, na escola
eram sempre os piores alunos.
Todos
tinham o mesmo sonho: O dia da morte do velho rabugento! Este dia era esperado
como as soluções para suas vidas. Pensavam haver ali um tesouro, como o do Tio
Patinhas, cheio de moedas de ouro.
E
este dia chegou, o rabugento morreu, e seu corpo ainda quente, um dos netos,
rapidamente, pegou a chave e abriu a porta proibida.
Tamanho
foi o susto, que o jovem gritou forte e caiu desmaiado. No quarto totalmente
vazio, sem nada, sequer um móvel, havia uma janela trancada com um pequeno
bilhete amarelado, escrito a mais de três décadas atrás:
ª COM
CURIOSIDADE SE VIVE, MAS VIVER NA PASSIVIDADE É UM DECLIVE.
_ Que
velho louco! – lembro-me que exclamamos ao termino desta historia. E tia Regina
nos esclareceu:
_ O
velho rabugento ensinou a sua família que na vida não se sobrevive a sonhos sem
fundamentos.
Nem
sempre suas historias eram convincentes, mas me encantavam!
Claudinho
estava com 14 anos e sua irmã, de apenas
dois anos, foram passar um final de semana em seu apartamento, isso sim era um
sonho para nós! Ela virava criança.
Lá
chegando, a pequenina foi até o quarto, enquanto meu primo e seus pais estavam
na sala conversando. Quando der repente, escutaram um tremendo barulho de louça
quebrando. Tia Regina correu na frente, e todos a seguiram. Lá estava à pequena,
com cara de cachorro quando quebra o vaso, assustada se jogou nos braços da
defensora de menores, que acariciava as costas da Ré já em pranto.
_ Não
foi nada meu anjinho, cuidado para não se cortar.
_ Eu
só queria botar o chapéu titia!
_ Ah,
mas este chapéu era para a lâmpada, não servia pra sua cabeça.
_
Você compra um pra minha cabeça?
_Claro
que sim!
Sara
no colo de tia Regina como se esta fosse uma redoma, esperava a bronca de sua
mãe. A situação tornou-se engraçada, porque tia Regina já estava acostumada com
as reprovações de sua irmã, que lhe aplicava um sermão:
_ Não
é assim que se educa Regina! Eu estava junto quando compraste este abajur,
caríssimo e o único que havia na loja, sei muito bem que era seu sonho de
consumo, seus olhos brilhavam quando o compraste. A menina quebra e não diz
nada, pior ainda, promete comprar um chapéu? Está cometendo um grande erro.
_ Mãe
educa e tia deseduca, nunca tive filhos e como vocês mesmas dizem, se os
tivesse, os mal criaria, afinal, que fez de errado esta menina? Viu um abajur
raro e por curiosidade ela quis usá-lo, uma coisa normal, uma perda felizmente
material!
_
Bem, a casa é sua, as coisas são suas e o problema é seu.
_
Problema? Você vê nisso um problema? E de quem é esta casa? – perguntou tia
Regina tentando conter o choro da pequena Sara ainda agarrada ao seu pescoço e
respondeu:
_ É
minha!
_
Isso, afirmava tia Regina.
_ Não
posso aceitar isso. – disse minha tia contrariada – Não confunda a cabeça dela!
– continuava sua teoria, agora se dirigindo a Sara:
_
Esta casa é da titia, a sua é onde moramos.
_
Sabe de uma coisa? Estou cansada dessa psicologia teórica que vocês usam agora.
Enchendo a cabeça das crianças com realidades antes do tempo! Infância é
somente uma, e passa muito rápido, se recriminamos tudo que fazem, crescem
adultos amargos, egoístas, donos da verdade e realistas em excesso. _ Disse tia
Regina já sem paciência com meus tios.
Coisa
normal, depois disso, tomou um delicioso lanche e meus tios se foram, ficaram
meus primos desfrutando o mundo mágico de minha tia amada. Ela pulava corda,
dava cambalhota e ensinava brincadeiras e canções de sua infância, eles estavam
tão felizes que não sentiram o tempo passar.
Sara
falava sem parar, provocando gargalhadas em tia Regina, que incentivava o mundo
imaginário, nisso ela era mestra. E anotava tudo em um caderno inseparável, ali
continha coisas de todos nós, seus sobrinhos. A primeira personagem foi Roberta,
minha prima mais velha. Lembro-me de ter lido nesse seu diário, esta passagem
com ela: Estava com dois anos e tentava falar tudo correto, um dia ela se
aborreceu com minha avó que assistia a sua novela na televisão, e Roberta se
queixou com tia Regina:
_ Tia,
eu pido, pido a minha avó e ela nada!
_ O
meu anjinho, não é pido, é eu peço.
_
Então, eu pecei, pecei e ela nada!
Bem,
nessa noite ela contou a seguinte história:
Capítulo quatro
Simão e Dimas, dois
pintinhos.
Era
uma vez, num grande quintal, nasceram dois pintinhos: Simão e Dimas. Simão era
metido e valente, Dimas ao contrario, humilde e medroso. Mal saíram do ovo,
olhando o tamanho do pátio, Simão disse a Dimas:
_
Este é o mundo irmãozinho! E deve ser emocionante poder conhecer todo o
terreno, vamos lá!
_ Ai,
me dá medo, deve ser perigoso.
_ Não
seja bobo. Veja! Tem patinhos no lago! Vamos nadar!
_
Espera, vou perguntar a mamãe se podemos nadar.
_ Vá,
pergunte claro que podemos nadar, somos aves seu ignorante.
Simão
saiu correndo em direção ao lago, mergulhou e afundou. Por sorte, um jacaré que
nadava tranquilamente, abriu a boca e o salvou do fundo do lago, colocando-o na
beira. Salvo Simão olhou nos olhos do jacaré, que estava com o corpo emergido e
a cabeça apoiada na grama, e disse.
_
Obrigado por salvar-me.
_ Não
há de que, seu tonto. De onde tirou essa ideia de que pinto pode nadar?
_ Mas
sou uma ave, não sou?
_
Sim. – respondeu o jacaré.
_ E
pato? O que é um pato? Não é uma ave? Ou pato é peixe?
_
Céus, um pato é ave e pode nadar.
_ E
jacaré é peixe?
_
Não, somos répteis.
_ Que
complicação! Vou subir naquela arvore e voar!
_ O
Mané, você é suicida?
_
Claro que não, por quê?
_
Porque os pintos não voam.
_ Os
pássaros não são aves?
_
São.
_ Por
isso, as aves voam ou nadam, já que eu não nado! Posso voar!
_ Mas
você não é um passarinho. Cansei você é uma cabeça dura, tenho mais o que
fazer. Fui.
O
jacaré mergulhou deixando Simão na beira do lago pensativo:
...
Que mundo é este? Tem aves que voam, outras nadam. Jacaré que nada e não e
peixe... Ah! Onde me encaixo nessa vida? – Bem, acabo de nascer, tenho muito a
aprender.
Minha
prima dormiu no meio da historia e Claudinho tentou esclarecer algumas dúvidas,
mas tia Regina também estava dormindo.
Raramente
ela lia historias, precisava usar óculos e sua vaidade não permitia. Gostava de
interpretá-las, havia momentos tão bem representados, que em nossa imaginação
parecia estar ali presente vários personagens, como num teatro.
Perguntávamos
por que ela não havia entrado para uma escola de Teatro e respondia:
_ Sou
uma atriz formada pela escola da vida, onde os melhores são sempre aqueles que
trabalham com o coração.
Sua
casa estava sempre cheia de amigos que a procuravam para desabafarem sobre seus
problemas, ela os ouvia atentamente e sempre terminava com um bom conselho.
Era
contadora, trabalhava numa empresa de Petróleo, não que fosse essa sua escolha
por vocação, e sim por opção. Um dia eu a perguntei:
- Por
que não entrou para a área médica como psicologia?
_ Eu
era muito pobre, quando pequena sonhava sim em entrar para esta área, porém
mesmo que eu fosse aprovada, não teria como arcar com os custos, pois os cursos
desta área exigiam estudo em horário integral e eu precisava trabalhar para
garantir minha sobrevivência. Assim que optei por uma área na qual eu pude
trabalhar e estudar a noite. Logo que me aposente vou dedicar-me a escrever
para crianças, adolescentes, carentes, etc. Por enquanto vou construindo meu
pezinho de meia, viver do que se escreve é muito frustrante financeiramente.
Como
eu admirava sua forma de ser, sonhar com os pés no chão, no fundo ela nunca
pensou como adulta.
Uma
vez foram ao supermercado, enquanto minha tia passava com as compras pelo
caixa, tia Regina passou à frente para adiantar guardando a mercadoria, foi
interditada por um garoto de quatro anos, que brigava com ela dizendo:
- Por
aqui ninguém pode passar.
- Mas
este cachorrinho quer sair.
- Ele
também não pode.
Débora
observava a cena com sua mãe e não havia cachorro nenhum, eles apontavam,
conversavam, discutiam como se o animalzinho estivesse presente.
-
Pobrezinho, ele vai chorar, Ih! Quer fazer pipi, o guarda vai brigar com ele.
- Eu
sou o guarda aqui. – disse o pirralho –
- Ok,
veja seu guarda ele vai para a rua!
-
Não, ele não pode ir sozinho para a rua, é muito perigoso.
Em
poucos instantes o moleque já estava no colo de minha tia, contando toda sua
vida e beijando-a.
Minha
tia já estava irritada com o menino, pegou as bolsas e saiu resmungando, tia
Regina se despediu e foi ao encontro delas, como não podia faltar à velha
pergunta, minha tia disse:
-
Regina é normal?
Ela
estava sempre sorrindo, nunca a vi reclamando, era positiva e dizia que Deus
nos dá uma cruz com o peso que podemos carregar.
Quando
menina foi vitima de abuso sexual, vivia em uma cidade do interior do Estado do
Rio, com apenas 2.000 habitantes, tinha um ano quando foi viver ali com meus
avôs. As crianças desfrutavam da natureza e da liberdade, animais eram criados
nas ruas.
Naquela
cidade, a garotada achava comum brincar de boneca, jogar futebol, pular
carniça, da mesma forma que exploravam sua sexualidade.
Uma
vez nos contou esta passagem de sua infância:
Capítulo cinco
Assédio Sexual Infantil
Eu
tinha apenas sete anos, quando chegaram da Capital, um primo de minha mãe, com
um homem que hoje imagino que deveria ter uns 35 anos de idade, eu adorava um
morro perto de casa, assim que o convidei a conhecê-lo. Chegando, ele me olhava
de uma forma diferente, sentou numa pedra para descansar e me disse que eu
parecia com uma atriz norte-americana chamada Rita Hayworth. E lhe perguntei:
-
Quem é? Eu nunca ouvi falar dela.
- Ela
é linda como você, ruiva e sardenta.
- Eu
não gosto dessas sardas, muito menos dos cabelos vermelhos, espero que sumam
quando eu crescer.
-
Quantos anos você tem?
-
Sete.
-
Somente? Sente aqui perto de mim.
Quando
vi, ele estava com o pênis pra fora da calça, movendo-o com as mãos. Fingi que
não vi e disse:
-
Olha que flor linda! Vamos já esta na hora do almoço!
Desci
o morro correndo como uma cabrita.
Entrei sem olhar ou falar com ninguém. Daí em diante nunca mais ficava
ou permitia que minhas irmãs ficassem a sós com ele.
- E
você não contou nada a seus pais?
-
Não, a ninguém. Quando uma criança é assediada ela se sente culpada, tem medo
de que não acreditem nela, porque sempre é a palavra dela contra a de um
adulto.
-
Mais meus avôs teriam acreditado em você.
- Eu
sempre fui muito curiosa, e pensar em sexo ou se conhecer era considerado
pecado. Por isso fiquei com medo de falar com eles. Hoje temos mais informação
e diálogo com nossos pais, até mesmo nas escolas, naquela época o pouco que
sabíamos era escondido, sempre através de uma amiguinha.
Porém
em qualquer época uma pessoa mais velha assediar a uma criança é um crime
inafiançável.
Contou-nos
também que nesta mesma cidade vivia um casal de velhinhos que não tinham filhos
e sempre a convidavam para dormir em sua casa, porque ela alegrava o ambiente
com seu jeito meigo de ser.
Em
uma noite, enquanto a senhora preparava o jantar pediu a tia Regina que fizesse
companhia a seu marido dizendo-lhe: - Ele sabe desenhar muito bem –.
Tia
Regina então foi até a sala e pediu ao senhor que lhe fizesse um desenho e ele
respondeu:
- Com
todo prazer, pegue o lápis. – disse ele com um tom insinuador e ela
inocentemente lhe perguntou:
-
Onde está?
E o
velho pegou a mão de minha tia e colocou-a em seu pênis. Felizmente ela não era
boba, fingindo que nada acontecia, voltou para a cozinha, sem comentar com
ninguém, sentiu pena da senhora a qual ela amava como uma avó.
Naquela
noite passamos por varias horas conversando sobre o abuso sexual e ela terminou
dizendo-nos:
-
Minha infância foi há muito tempo atrás, naquela época não se falava sobre os
abusos, somente quando era um crime de repercussão nacional, como foi, por
exemplo, o caso da Fera da Penha, uma mulher que matou e incendiou uma menina
de sete anos no bairro da Penha. Hoje esses crimes continuam acontecendo, mas
felizmente temos organizações em defesa de crianças e adolescentes.
-
Então estas organizações não servem de nada?
-
Claro que servem e benditas sejam, hoje as crianças estão legalmente amparadas,
não necessitam temer pela incredibilidade de sua palavra.
E com
os olhos cheios de água, balançou a cabeça, pois esta era a forma de disfarçar,
enxugou as lágrimas com os dedos indicadores e suspirando nos disse:
- Se
eu pudesse seria o anjo da guarda de todas as crianças, não permitiria que nada
de mau lhes acontecesse.
- Mas
você é nosso anjo!
-
Tenham certeza que sempre estarei aqui para ajudar.
- E
quando você morrer?
-
Nunca morremos, somente mudamos de dimensão.
-
Então por que choramos quando morre alguém?
-
Somos imperfeitos, por isso nossos espíritos vivem morrendo nesta vida e
despertando em outra.
Sofremos com a morte, temos saudades quando perdemos um
familiar, porque ainda não nos conscientizamos de que a morte é uma passagem
para nossa evolução espiritual. Por isso é que um dia escreverei para crianças,
quero deixar um pedaço de mim, isto é: minhas palavras.
- E
nós teremos o grande orgulho em dizer que você foi nossa tia.
- E
eu mais ainda por saber que estarei ajudando.
-
Tia, você tem medo de alma do outro mundo?
- Já
tive, quando era criança, vivíamos ao lado de um cemitério e eu tinha
mediunidade.
-
Mediunidade? O que é isso? – perguntamos assustados.
- Eu
via pessoas que haviam morrido.
-
Cruzes! É melhor mudarmos este assunto.
-
Toda criança tem este poder, não precisam temer, lhes explicarei:
Capítulo seis
Mediunidade Infantil
Numa
noite me levantei pra ir ao banheiro, voltando para o quarto havia uma mulher
negra sentada na beira de minha cama.
Apavorei-me
e fiquei sem voz para gritar, fui ao quarto de meus pais, falei com minha mãe,
porém ela estava cansada de tanto trabalhar e disse-me: - Vá dormir Regina. –
eu obedeci e voltei, a mulher continuava sentada com o olhar fixo para o nada.
Rezei um Pai Nosso e pedi que aquela visitante fosse encaminhada à luz. Abri os
olhos e felizmente havia desaparecido o fantasma.
No
dia seguinte mamãe me perguntou o que havia acontecido, eu lhe expliquei e ela
me disse que havia sido um pesadelo.
- Mas
a vovó acredita em espíritos. – dissemos –
-
Hoje, naquela época ela não tinha tempo para nada, seria um tema que renderia
uma conversa prolongada, talvez por isso para ela fosse melhor se fazer de
desentendida.
- Mas
tia, você acredita em espíritos, nós também, mas e as crianças que são de outra
religião?
- A
fé independe de religião, se tem uma visão, fale com Deus, reze, fale com seu
anjo de guarda. Não existe este Deus que te castiga ou que te condene, ele é
pura luz e bondade. Nós próprios é que nos condenamos, por isso estamos de
passagem e a cada encarnação voltamos mais evoluídos.
Capítulo sete
O Adolescente e a vida
Sexual
Minha
prima estava com 17 anos de idade e namorava um rapaz chamado Júlio, dois anos
mais velho que ela. Tia Regina chegou ao apartamento onde moravam meus tios, ao
entrar na sala, deparou com os dois pelados no sofá. Ela fechou a porta pela
qual havia entrado e disse em voz alta do lado de fora:
_ Vou
tocar a campainha, sou eu: Tia Regina.
Ela
deu um tempo para que o casal se vestisse e tocou a campainha. Roberta abriu a
porta com cara de poucos amigos e Julio com má vontade dirigiu-se a tia Regina
e disse:
_
Desculpe tia, foi mau.
_
Calma, vamos conversar – disse tia Regina.
_
Deixemos para outra hora, estou atrasado, tenho que ir à universidade.
Ele
estudava medicina e tia Regina, ironicamente disse:
_
Você estuda muito, penso que interrompi uma aula de anatomia. Faz bem em
estudar, porém quero sentar-me com vocês e orientá-los.
Julio
desconcertado saiu rapidamente com um sorriso amarelo, Roberta sentou-se num
sofá e disse:
_
Pronto, vai me dar um sermão, contar a minha mãe ou marcar uma reunião com a
família?
_ Nem
uma coisa, nem outra. Desde quando sou um padre para fazer um sermão ou uma
fofoqueira que fala aleatoriamente sobre a vida alheia?
_
Para tudo existe uma primeira vez, sei muito bem que não é perfeita, pessoas
boazinhas como você um dia botam as mangas de fora. Passa pra todo o mundo que
é uma santa, evoluída, mas tenho certeza que tem seus preconceitos. Sou adulta
e dona do meu nariz. Ta bem, não sou mais virgem, tomo anticoncepcional e não
quero engravidar-me cedo assim como fez minha mãe. Antes era diferente, o mundo
mudou, você sabia? Nós mulheres já não vivemos mais de sonhos a espera do
príncipe encantado, a vida evoluiu, já não temos mais fantasias, vivemos num
mundo real, hoje...
_
Posso falar? – interrompeu tia Regina – Você está mesclando as águas. Entendo
perfeitamente sua reação, invadi um momento de sua privacidade, mas assim como
fui eu, poderia ter sido seu pai, sua mãe, sua avó ou sua irmã. Pense bem, não
temos o direito de impor nossas atitudes, principalmente se vivemos debaixo do
mesmo teto e dependemos dos pais para nos manter financeiramente. Você não é
obrigada a pensar como nós, o que é obvio, mas tem o dever de respeitar. Seria
errado se entrássemos em sua casa sem avisar, mas esta casa é de seus pais.
_
Perdão tia, foi mau.
_ Não
tenho que lhe perdoar minha princesa, você apenas não se preocupou com as
conseqüências.
_
Ainda bem que foi você, se fosse meu pai! Nossa! Nem pensar, ele se acha o todo
poderoso, o dono da verdade.
_ É
porque ele lhe ama e como a maioria pensa que pelo fato de ser adulto tem
sempre razão. Nós os mais velhos, não poderíamos exigir que os jovens pensassem
como nós, não somos perfeitos.
_
Seria tão bom que meu pai também pensasse assim, será que ele nunca entenderá
que eu cresci?
_
Para os pais os filhos jamais crescem, são como seus eternos pintinhos, alguns
são como Simão, que pensam saber de tudo caindo nas garras do mundo, pensando
porque jacaré não é peixe e nada e porque um pintinho é uma ave que não voa.
_ Pobre
do Dimas! Ele obteve as respostas da mãe?
_
Veja – insistiu tia Regina – onde quero chegar, as mães protegem, mas não sabem
a resposta correta. Só o tempo às conhece! A vida é uma encruzilhada, cabe ao
nosso instinto saber qual o caminho seguir, o qual chega na hora exata. Porque
para cada coisa tem o seu tempo. E sabe que nosso corpo é quem nos reflete este
momento?
_ Não
tia, agora você viajou na maionese!
_
Sabe quando uma criança já está preparada para aprender a ler e escrever?
_ Aos
cinco, seis anos, depende. Você que sabe tudo, então me explique?
_
Quando a criança consegue passar um dos braços sobre a cabeça e tocar sua
orelha com a ponta dos dedos. – explicou tia Regina-
_ E
como sabe disso?
_ Uma
amiga me contou e eu comecei a observar.
_ Se
o corpo nos mostra a hora, então já estamos prontas para ser mãe logo que vem
nossa menstruação?
_ Eu
entendo que do ponto de vista biológico sim. No entanto nosso organismo ainda
necessita de um período de maturidade para o desenvolvimento adequado dos órgãos.
Por exemplo: depois que nascemos para aprendemos a caminhar, este processo de
aprendizado leva uns dois anos; assim como para aprendermos a falar é preciso
mais dois anos.
_ Não
entendi.
_
Quero dizer que não nascemos aptos para desempenharmos as tarefas que a vida
nos impõe. Quando chega a primeira menstruação?
_ Aos
doze, treze anos – respondeu Roberta espontaneamente.
_Veja,
está afirmando minha teoria, o que passa quando temos filhos na adolescência:
Uma grande maioria não tem a maturidade necessária para exercer adequadamente a
maternidade. Tudo tem seu tempo e são
tão prazerosas, as fantasias, o amor e os sonhos!
_ E
sonhar é contigo mesma.
_ O
que esta acontecendo hoje em dia é um excesso de realidade, as crianças não creem mais em Papai Noel ,
na cegonha, no coelhinho da Páscoa, todos estes sonhos foram roubados por uma
série de fatores; podemos destacar dentre eles a evolução tecnológica e o
consumismo gerado pelo sistema capitalista. Em minha época se conservava a
virgindade e quando se transava antes do casamento, os pais falavam: Minha
filha foi desonrada.
_ E
você pensa assim?
_Claro
que não, se himem fosse honra nunca se romperia. O que quero passar para vocês
adolescentes é o valor de uma relação sexual, sexo não é uma necessidade
biológica, se assim fosse somente transaríamos no cio como os animais. Temos
que saber a importância deste ato, com quem estamos fazendo e por que. Transar
é uma explosão de amor em sua máxima plenitude. Quantas mulheres fazem amor sem
atingir o orgasmo? Temos que estar preparadas e sabermos a importância de fazer
amor.
_
Como foi sua primeira vez tia?
_ Eu
tinha a sua idade e namorava um rapaz sete anos mais velho que eu, quando nos
encontrávamos era maravilhoso, sentia que ia explodir de prazer, quando nos
beijávamos era uma sensação mágica!
Era
muito gostoso, eu sonhava na noite de núpcias.
Porém
ele comprou um carro e numa tarde fomos ao cinema, pela primeira vez depois de
três anos de namoro, tivemos o consentimento de sairmos sozinhos.
_
Vocês nunca saiam a sós?
_
Imagine, estávamos no inicio dos anos 70, os casais não podiam sair sem que
tivessem acompanhados, ainda que fosse por uma criança impunha respeito.
_ E
servia pra alguma coisa?
_ De
certa forma dificultava, se naquela noite estivéssemos acompanhados não teria
passado esta terrível experiência. Fomos ao cinema e na saída ele pegou o
caminho da Barra da tijuca, onde existiam os Motéis, lhe perguntei por que
fazia aquele caminho e ele me disse: - tranquila, vamos assistir uma corrida de
submarinos.
_ Mas
tia, eu não posso acreditar que você caiu nessa.
_
Hoje eu sei meu anjo, mas nossa geração era pura, eu acreditei e fui. Ele
estacionou o auto na beira da praia e aí imaginas!
_
Imagino! Mas me conte com detalhes:
_ Eu
estava incendiando ele me beijava a todo tempo e controlava minhas mãos, até
que consegui falar e murmurei:
_
Estou com medo. –e ele me consolou dizendo: - Vamos a um lugar mais seguro.
Assim
que fomos a um Motel, ao chegar, todo aquele ambiente sinistro, sabendo que
todos estavam ali com um único propósito, já não era um sonho, toda minha
excitação transformara-se em preocupação e num grande medo de engravidar. – Ele
continuava me acalmando, até que senti ser penetrada, foi uma dor terrível,
ardia e assim se foi minha virgindade. Ele gritava comigo quando comecei a
chorar não de dor material e sim a dor de sentir todas minhas fantasias
desfeitas, principalmente o amor e a confiança que eu depositava nele. Fomos
para casa, sem uma palavra sequer e terminamos o namoro.
_ Que
horrível! – E não tentaram outra vez? Ele aceitou tranquilamente? E se
estivesse grávida?
_
Não, nada mais tinha a fazer a não ser esperar minha menstruação que felizmente
veio dias depois, embora sendo mais velho que eu, ele não tinha maturidade
suficiente.
_ O
que foi que alegaste a ele?
_ Que
eu não estava preparada.
_ E
ele aceitou assim, numa boa?
_Não
só aceitou como deu a entender que somente se casaria com uma menina virgem.
_ Que
maldito! – exclamou Roberta –
_
Este era o conceito da maioria dos homens, até pouco tempo atrás, falo do
inicio da década de 80, sabe que ainda fazia parte da separação consensual uma
clausula que dava direito ao homem de anular o casamento quando constasse na
noite de núpcias que a mulher não era mais virgem!
_
Cruzes que atraso! – Mas tia e depois? –
_Bem,
depois tinha meus namoricos e fingia ser virgem.
_
Está se reservando para Juan Carlos?
_
Este é o meu sonho, casar-me apaixonada, ser amada, admirada e cúmplice da
felicidade. Creio tanto nesse sonho que será realizado, não importa quando.
_
Você quer casar, com cerimônia e tudo mais?
_
Claro que sim e com minha alma gêmea.
_
Você acredita em almas gêmeas?
_
Acredito é claro!
_
Tia, você me perdoa pela forma grosseira como te tratei? Não sei o que me deu
jamais me passou pela cabeça as coisas que te disse, você é a pessoa mais
maravilhosa deste mundo.
_ Na
verdade me senti ofendida sim, mas isso somente acontece com as pessoas que
amamos, se fosse uma pessoa indiferente para mim, que se dane! Mas entendi que
sua atitude foi um mecanismo de defesa ao ser surpreendida num momento de
intimidade. E quando eu disse que queria
conversar, não foi com o intuito de reprovar, mais sim com a intenção de
orientá-los, para que tomem determinadas precauções, como por exemplo:
O risco de uma relação sexual não é somente
uma gravidez indesejada. Existem as enfermidades venéreas sexualmente
transmissíveis, tais como: gonorreia sífilis, condiloma, hepatite B e
finalmente a doença do século a AIDS, etc. E todas estas doenças não se
previnem apenas com o uso do anticoncepcional, o qual, além de conter em sua
fórmula uma forte dose de hormônios que acabam sobrecarregando o organismo.
Sem
falar na falta de seriedade do controle de qualidade não só deste medicamento,
assim como de muitos outros, que em diversos casos, são produzidos de pura
farinha não surtindo nenhum efeito.
Não
existe grupo de risco, pobres daqueles que pensam que pelo fato de ter apenas
uma parceira, está livre de doenças.
_ É
verdade, me lembro da Alicinha, minha amiga da escola, que namorou apenas dois
meninos e justamente o primeiro tinha AIDS e ela morreu aos dezessete anos de
idade.
-
Exatamente, uma menina que não tinha vícios, tranquila que nunca fez
transfusão de sangue, que supostamente não fazia parte do grupo de risco,
morreu em plena adolescência diagnosticada por seu pediatra. Se a enfermidade
não tivesse se manifestado, quem poderia imaginar que ela seria soro positivo?
_
Ninguém, ela muito menos, como suspeitar que já estivesse condenada a morte?
Mas fique tranquila, que eu só transo de camisinha. – disse Roberta -
_ E,
por favor, não deixe de levá-la na carteira, nada de vergonha e muito menos de
acreditar no velho ditado de que o uso da camisinha numa relação sexual seria o
mesmo que chupar bala com papel, isso é pura ignorância e inconsequência E
agora basta de papo e vamos arrumar seu quarto!
Capítulo oito
Ordem e Progresso
Minha
prima tentou por varias vezes adiar a arrumação de seu quarto. Lembro-me de que
Roberta nunca o havia arrumado até este dia, e perguntou pela centésima vez.
_
Arrumar o quarto agora tia?
_
Sim, porque não?Ontem fiquei apavorada quando entrei naquele mafuá, era pura
bagunça!
_ É
uma bagunça organizada. – argumentou Roberta -
_
Desde quando bagunça é organizada? O nome já diz tudo: BA GUN ÇA.
_ Eu
me entendo bem com ela. – insistiu Roberta.
_ Meu
anjo, a limpeza e a organização da nossa casa refletem em nossa vida.
_ Já
vem você com suas bruxarias!
_ Não
se trata de bruxaria. Tente organizar suas coisas, limpar, jogar ou dar de
presente às coisas que não usa, tire a poeira, pois esta gera má energia. Somos moléculas de luz, vibração, observe o
peso que sentimos quando estamos sujos: transpiramos, exalamos odor
desagradável. E o que nos passa depois de um bom banho? Ficamos energizados,
rápidos e bem dispostos, pensamos melhor, raciocinamos mais claramente,
dormimos bem e assim prosperamos.
_ Mas
tia, a Gloria cuida disso! – Tentando mais uma vez fugir da árdua tarefa,
transferindo-a para Gloria (a arrumadeira)
_
Pobre Gloria, é responsável por todo o serviço da casa e em relação à
organização de seu quarto, o máximo que consegue fazer é guardar suas roupas.
Experimente você mesma se ocupar dessa tarefa e depois me conte!
_
Tentarei, mas preciso de sua ajuda.
_ É
pra ontem. – disse tia Regina já na porta do quarto.
As
duas passaram três dias arrumando a desordem. Roberta espantou-se ao ver tanta
coisa guardada, ou melhor, dizendo: amontoadas.
No
final daquele mês, casualmente Roberta ganhou um computador do meu tio, que lhe
disse: Há tempos vinha pensando em comprá-lo, porém quando via a desordem de
seu quarto pensava: - Vou jogar dinheiro fora, se Roberta não liga para
arrumação de suas coisas, como cuidará de um computador? – Porém graças ao
apoio de tia Regina você me convenceu de que tem capacidade.
Roberta
ligou na mesma hora dando a noticia. E minha tia disse:
_ Vê?
A ordem trás o progresso! Estou orgulhosa de você meu anjo!
Passei
a observar o quanto tia Regina era organizada, seu apartamento era muito
pequeno, sala e quarto, porém havia uma dependência de empregada que ela
transformou num escritório. A cada ano ela mesma pintava, mudava a decoração,
as cortinas, os almofadões e adorava quando elogiavam sua casa, dizia que nosso
lar é um Templo.
Contou-me
que quando mais nova, vivia num conjugado, porém era o que conseguia pagar com
o salário que recebia, estava namorando um tipo rico. Este, um dia a levou para
conhecer seus pais, que moravam num senhor apartamento de 800 metros quadrados, no
décimo andar, na Av.Delfin Moreira. Tia Regina achou um exagero, um espaço
tamanho para apenas três gatos pingados morarem, bem, ela se adaptava a
qualquer situação. E a cada vez que ia ao lavabo, ela dizia ao namorado:
_
Sabe que meu apartamento inteirinho cabe aqui dentro?
_
Verdade? Não acredito! Por isso que você nunca me convidou para conhecê-lo?
- Seu
bobo, não é nada disso é que ainda não houve oportunidade.
Ela
não podia recusar o convite e também deixar de retribuir o jantar, assim que
marcaram para o próximo sábado. O apartamento era um pequeno retângulo, á
direita ficava a porta de entrada, com uma saleta onde mal cabia uma mesa e quatro
cadeiras, do lado esquerdo paralelo a sala havia um armário que era a cozinha
embutida e ao lado um banheiro, depois desta saleta vinha o grande cômodo de 9
metros quadrados. Mesmo sendo pequeno ela fez um milagre, todos admiravam a
decoração, muitas plantas e poucas cores.
No
sábado estava elétrica preocupada com detalhes sobre a decoração de seu
apartamento. Encontrou na lixeira do andar, um tapete de palha, - cabe perfeito
sob a mesa – pensou, recolheu e executou.
Perfeito!
– O tapete compôs harmoniosamente a saleta, analisando os detalhes uma coisa
não a agradava: Era uma lâmpada pendurada pelo fio, justo sobre a mesa! - outra
olhada e mais uma ideia – Lembrou-se que havia no seu guarda roupa uma antiga
bolsa de palha a qual fazia muito tempo não a usava, que em poucos minutos
transformou-se numa luminária.
Ao
chegar, seu namorado ficou encantado e surpreendido, como poderia uma pessoa
morar num apartamento tão pequeno e decorado com tanto bom gosto.
E ele
disse:
_ Que
mundo lindo o seu Regina!
_
Obrigada, depende a que mundo se refere – disse ela sorrindo –
Porque
se a referencia for meu apartamento o seu seria todo o universo e muito mais.
_ Não
é do apartamento e sim de sua forma de ser, te admiro tanto!
Até
que saiu um beijo, coisa preferida de tia Regina. Estavam no sofá do grande
Três X Três, quando sentiram um cheiro de coisa queimando.
Eu
perguntei, já imaginando a resposta:
_ O
que aconteceu? Não Me diga que era a bolsa incendiando!
_
Era, foi uma vergonha e tanto, mas que me fez aprender uma coisa, não se vive
um sonho sem antes dar corpo, me entendeu?
_
Assim como a historia do velho rabugento?
_
Correto, ser ambicioso faz parte da nossa vida, mas temos que primeiro
concretizar as bases. Eu era muito jovem, tive uma ideia e a executei. Poderia
ter dado certo se eu tivesse feito uma armação de arame e afastado a palha do
calor da lâmpada.
_ Mas
você só queria fazer uma presença.
_ E
que presença! Mas sabe de uma coisa? Morro de rir quando me lembro desse
episódio.
Sua
vida, a pesar desses eventos engraçados.
Era
próspera, ela sempre vencia as batalhas e quando alguma dificuldade surgia em
seu caminho e planos ela dizia:
_ Faz
parte do meu show e o show tem que continuar!
Capítulo nove
Câncer de Mama
Perto
de sua aposentadoria, ela estava pensativa, a diretoria da empresa onde
trabalhava queria que ela continuasse trabalhando. Um dia, Carlinhos foi
visitá-la e percebeu que alguma coisa se passava, então lhe disse:
_
Tia, embora esteja tentando ser uma fortaleza, sinto que alguma coisa vai mal,
eu sei que sou jovem, tenho somente 14 anos, mas posso tentar te ajudar.
Seus
olhos encheram de lágrimas e ela lhe disse:
_
Como sou orgulhosa de você meu anjo, ser jovem não significa imaturidade, veja,
você me radiografou, estou sim com um drama, preciso desabafar com alguém,
graças a Deus que vieste me ver.
Sua autoestima
foi nas nuvens. Tia Regina, aquela grande pequena mulher de 50 anos, precisando
aconselhar-se com ele! Aquela mulher que sempre encontrava uma solução, que nos
amparava com suas palavras, que era nosso refúgio, estava ali na frente dele,
recostada em seu colo e ele acariciando seus cabelos suaves e perfumados. Era
como se fosse uma adolescente precisando se desabafar, teve vontade de chorar
com tamanha emoção.
_
Fale tia, tentarei fazer como você, saber ouvir. _ disse Carlinhos, se sentindo
um Homem -
_ E
começou muito bem, saber ouvir, sabe a diferença entre ouvir e escutar?
_
Não. – ele respondeu -
_
Ouvir é atender e escutar é entender.
_
Ouvirei e escutarei.
_ Vou
direto ao assunto, descobri um nódulo no meu seio, fui ao medico, ele fez a
biopse e o resultado foi positivo, estou com um câncer de mama, não tenho medo
de morrer, você sabe disso, mas ainda tenho tantos sonhos por realizar. Sei que
houve muitos avanços na medicina e em outros campos, na minha época sequer
falavam em câncer, diziam aquela doença, muita coisa mudou nesse meio século de
vida, venho da era do rádio, dos discos de vinil...
_
Discos de vinil?
_
Vieram em 1948 substituindo os anteriores chamados de goma-laca que eram de 78
rotações por minuto. Os televisores eram enormes de forma arredondada e imagem
preta e branca, havia uns plásticos com três listras coloridas que colocávamos
para iludir uma imagem a cor. Os
telefones eram pretos e grandes que às vezes passávamos um dia para
conseguirmos completar uma ligação, até chegar o sistema digital, os celulares
e finalmente os computadores, sabia que o chamavam de Cérebro Eletrônico?
_ Por
quê?
_
Coisa dos Norte Americano quando em 1943 criaram o ENIAC assim o chamavam, era
mantido em uma sala refrigerada e só foi patenteado depois da II guerra mundial
em 1947, busque na internet, lá encontrará todas essas informações.
_ Que
barato! Tia, eu nunca me liguei nisso.
_ E
sabe de uma coisa? Lembrando e vivendo essa evolução humana e tecnológica que
me sinto preparada para esta cirurgia.
-
Isso é maravilhoso. Eu sabia que chegaria a essa conclusão, tirou um peso
enorme de cima de mim, estava com medo de não poder te ajudar.
_
Como não me ajudaria! Se não fosse por você eu estaria chorando.
_ Eu
não falei nada.
_
Ouviu e escutou, esta é a melhor ajuda, você soube me analisar, apesar de sua
pouca idade, demonstrou possuir uma sensibilidade que supera a de muitos
adultos. Esta atitude de sua parte foi muito nobre e como sou conhecida por
maluca, te digo: O show tem que continuar!
_ Tia
eu te adoro!
_ E
você é a razão do meu viver!
Abraçaram-se
chorando e pediram aos mestres superiores que lhe dessem forças e coragem para
superar aquele mau momento.
Ela
fez a cirurgia e não foi necessário retirar a mama, pois tia Regina fazia
exames frequentemente. Todos souberam depois, já quando estava tudo resolvido.
Isso porque tia Regina tinha suas superstições, ela dizia que nunca se deveria
contar com o ovo dentro da galinha. Assim que depois de todo acompanhamento, colocou
uma prótese, tão logo que foi liberada. E orgulhosa nos dizia:
_ Na
vida nada acontece por acaso, eu sempre quis ter seios maiores e consegui!
Capítulo dez
O Adolescente e as
Drogas
Quando
finalmente ela se aposentou, seus amigos a homenagearam com uma grande festa.
Viajou
por 40 dias e como dizia, começou a dar bases a seus sonhos, comprou uma casa
na região dos lagos e lá escreveu seu primeiro livro para adolescentes, foi um
sucesso, minha avó então lhe pediu que escrevesse sobre sua vida e lógico que
ela o fez.
Nessa
casa tínhamos espaço para muitas pessoas e claro que nós, seus seis sobrinhos
éramos assíduos, nos finais de semana, férias, feriados, enfim, sempre.
Num
dia de verão, tia Regina chegou a casa com um ar aborrecido, foi direto para
seu quarto e somente saiu depois de algumas horas, percebi que seus olhos
estavam avermelhados. Aproximei-me dela e disse.
_
Necessita de uma analise? É grátis.
_ Meu
anjo da guarda –respondeu soltando sua gostosa gargalhada-
Analista,
como poder ocultar de você algum problema! Vamos até a varanda, tenho um
probleminha sim.
_
Seus olhos estão dizendo tudo.
E ela
como sempre, ia direto ao assunto e contou:
_
Sabe, peguei um táxi para o centro, quando fui pagar notei que havia sumido
dinheiro da minha bolsa, porém ontem fui ao caixa eletrônico.
Você
me conhece, nunca me deixei dominar pelo dinheiro, muito menos contar quanto
tenho o que me preocupa é que foi um furto dentro de casa, quem fez e por quê?
_ Isso
é grave tia, muito grave.
_ Meu
Deus, a única coisa que passa pela minha cabeça é droga!
_ Ai
tia, isso me arrepia! Por que droga?
_
Infelizmente quando se entra neste mundo a pessoa se modifica em seu meio
familiar, se torna mais dócil, vulnerável, suas ações se transformam numa
tentativa de esconder esse caminho sem volta. Mais vocês são criados com
diálogos francos, sinceros, livremente, somos uma família onde existe harmonia
e amor. A única pessoa estranha é o Roberto, amigo do Claudinho, ele é
introvertido, não te olha nos olhos, se nota que em sua família não há união.
_
Será?
_ Não
somos ninguém para julgar, muito menos acusar sem provas. Vamos nos reunir
depois do jantar, sei que teremos uma agradável surpresa. Tenho um bom
pressentimento.
_ Ah
minha tia bruxa!
À
noite nos reunimos e tia Regina disse:
_ O
motivo desta reunião é muito sério: Sumiu dinheiro da minha bolsa, gostaria de
saber somente a verdade, seja qual for. A mentira tem pernas curtas e sempre é
descoberta. A verdade às vezes parece difícil, pois achamos que nos trará
sérios problemas, porém é melhor sofrer momentaneamente a ter que enfrentar o
desmoronamento de uma mentira. Na vida não existe erro e sim fracasso.
Engana-se aquele que pensa que a culpa de nossos fracassos é sempre de outra
pessoa, dos pais, dos amigos, de A ou de B. Se engana aquele que foge pensando que
vai escapar de suas responsabilidades.
A
primeira desconfiança que tive foi que algum de vocês está envolvido com
drogas. E a droga nunca foi válvula de escape de problemas, nunca foi e nunca
será uma forma de levar a vida adiante.
Quem já viu uma pessoa que se droga ser feliz?
Ou alguém feliz que se drogue? Quem já viu um traficante drogar-se?
É com
imenso pesar que atravessamos hoje momentos de grande sofrimento quando todo o
dia presencia morte de crianças causada por overdose, geralmente de classe
média alta.
Se algum de vocês estiver passando por isso não tenha vergonha de pedir ajuda.
Se algum de vocês estiver passando por isso não tenha vergonha de pedir ajuda.
O
silencio era aterrorizante, apenas se ouvia as ondas do mar batendo na areia,
silencio o qual foi interrompido por Claudinho com a voz embargada:
_
Perdoa tia, eu peguei o dinheiro, mas juro que não foi pra comprar droga, a
verdade é que eu e Roberto conhecemos umas meninas e as convidamos para o
cinema, eu ia te pedir, mas você não estava depois eu ia te contar e me
esqueci.
_ Se esqueceu
de contar ou sentiu vergonha?
_ Em
realidade tive vergonha, pensava em pedir ao papai e repor o dinheiro.
_ Mas
meu anjo, vergonha de mim?
_ Não
sei por que, foi instintivo. Por quê?
_
Medo de ser advertido. Quando somos crianças pensamos e julgamos os mais velhos
como autoritários, donos da verdade, isso é normal, por mais que tentemos
aparentar que somos amigos, esse é um tabu que só mais tarde é que
compreendemos que nossos pais falam, recriminam para nosso bem e só entendemos
quando passamos a mesma situação com nossos filhos, atenção Roberta!
Roberta estava grávida da sua primeira filha.
_ Bem
assunto encerrado, eu sabia que não era o pior, a cada falta encerra um
aprendizado. Quase tive um piripaque ao escutar o meu bebe dizendo: - Tia fui
eu! O chão fugiu dos meus pés! Lembrei-me daquele pestinha chegando a meu
apartamento querendo tomar banho de banheira e eu exausta inventava que as
toalhas estavam de molho, ele insistia, até que tinha uma furada e fiz um
escândalo dizendo que entre elas havia uma que mordia.
- E
ele acreditava?
- Não
só acreditava como morria de medo. Era um descanso.
- Bem
já haviam comentado comigo que você não era normal. – Disse Roberto à tia
Regina que chorava de tanto rir e em coro, todos nos gritamos:
- Tia
Regina é normal?
-
Normalíssima! – disse ela sorrindo – E por falar em normal – aproveitando que
Roberto esta aqui e já faz parte da família, nada mais justo que receba parte
de minha herança.
-
Herança? Como assim?
-
Você não sabia que sou herdeira do mundo?
- Que
doideira é esta?
-
Quando nasceu minha primeira sobrinha...
- Eu.
- levantou-se Roberta e completou a narrativa: Sabem o que ganhei dela? Pasmem
a Lagoa Rodrigo de Freitas. Eu acreditava mesmo que era a dona, todo o domingo
ia cuidá-la, andar de pedalinho, era um barato! Quando eu estava com sete anos
nasceu Débora, agora vem a rivalidade.
-
Rivalidade não Roberta – disse Débora – Lhes contarei: Eu adorava passar os
finais de semana na casa de quem?
E
novamente em couro dissemos:
- Da
louca de tia Regina!
-
Claro, acho que puxei muito a ela e um dia eu lhe disse: Que praia linda!
Referindo-me a toda a praia de Copacabana ao Leme e ela sem pestanejar me doou
todo aquele patrimônio, dizendo:
- É
sua herança da titia. Gente eu amei a ideia e um dia passando pela lagoa eu ri
baixinho e comentei com tia Regina: Olha o tamanhinho da herança da Bebeta!
-
Carlinhos ficou com a Região dos Lagos, Claudinho todos os parques de
Copacabana. E doze anos depois veio Sara e como estavam morando fora do Rio de
Janeiro, herdou todas as cascatas e cristais do cerrado de Goiás.
- Eu
então oficializei minha herança, Foz do Iguaçu. – Foi uma baderna geral – e tia
Regina disse: Nada de brigas, somos herdeiros do mundo, temos que cuidá-lo com
amor.
Naquela
noite mais que especial e uma das ultimas reunidos, ela criou acho que um dos
melhores contos para nossas vidas, o qual passou a ser meu livro de cabeceira.
Capítulo onze
A lenda da vida
Num
campo afastado do barulho de carros e burburinhos da cidade, um casal de crianças,
Maria e João, brincavam de pique esconde. Estavam suadas, de tanto que corriam
embora fosse uma fresca tarde de primavera com sua temperatura amena, uma suave
brisa tocava seus rostos vermelhos de calor.
De
repente se assustaram quando uma chuva de sementes coloridos e tamanhos
diversos caía de uma solitária árvore frondosa, localizada no centro do gramado
onde brincavam.
-
Olhe! Exclamou João! Que apontava espantado, com uma das mãos e a outra
segurava a cabeça, como que saudando aquele fenômeno, enquanto que Maria
tapando os olhos com as duas mãos gritava:
-
Isso é coisa do demônio, vamos correr daqui.
-
Maria observe, são lindas e caem da árvore e sendo da arvore é da natureza e
natureza é Deus!
João
agora com os braços estendidos pra cima girava alegremente debaixo da chuva
encantada.
-
Tens razão João. Disse a arvore. - causando espanto nas crianças -
- Não
se assustem meu nome é VIDA e estas são minhas sementes, colham-nas e
semeiem-nas.
Ao
completarem 45 anos de idade, voltem a este mesmo local, que aqui estarei a
esperá-los e somente nesta ocasião é que saberão seu significado.
As
crianças colheram todas as sementes e no caminho a suas casas fizeram um pacto:
-
Maria este será um segredo nosso. – disse João.
- Por
quê? Quero ver a cara de todos quando souberem.
-
Você acha que vão acreditar? Internar-nos-ão num hospício ou vão nos exorcizar.
- Mas
temos a prova, olhe! E ao mostrar as sementes Maria gritou:
-
Olhe são todas iguais são comuns!
-
Está vendo? Este é um sinal de que não temos eu contar para ninguém.
E
para frustração de Maria, foi o que fizeram.
Maria
era uma menina introvertida, não tinha amigos, em sua cabecinha de apenas nove
anos, guardava um grande complexo de inferioridade, filha única e seus pais
eram grandes empresários, prósperos, sem problemas financeiros.
Ela
estudava no melhor colégio de uma pequena cidade, todos os anos viajavam pelo
mundo e ao voltar de férias suas colegas de turma, perguntavam como eram os países,
seus costumes, as paisagens...
Ela
respondia:
-
Isso não me interessa pra nada, não me misturo, prefiro ficar no melhor hotel e
aproveitar das regalias.
Vivia
no seu mundinho vazio e solitário, por isso não tinha amigos.
Nesta
noite ao chegar a casa João soube que seus pais iriam morar no norte, pois a
fabrica na qual seu pai trabalhava como vigia, fora transferida para Manaus.
Correu
até a casa de Maria e lhe deu a noticia que caiu sobre ela como uma punhalada
em seu coração, não pode conter suas lágrimas e abraçou ao amigo perguntando:
- Com
quem vou conversar agora?
- Com
suas amigas do colégio.
- Não
tenho amiga, elas fogem quando tento me aproximar, sou tratada de burguesinha.
- Tem
a seus pais, converse com eles!
- Até
parece, eles estão sempre trabalhando, nunca estão em casa, me ignoram.
- Não
é assim, eles trabalham muito, te amam e não querem que te falte nada.
-
Pois preferia que me faltasse tudo, menos a atenção, coisa que não tenho.
-
Você está sendo dura.
- É a
verdade. Você se lembra quando tive uma virose? O medico veio aqui em casa,
eles pagaram uma enfermeira pra cuidar-me e sequer passaram uma horinha comigo.
Vez ou outra que minha mãe da porta me mandava um beijinho barulhento.
-
Experimente se abrir com eles, vai ver não percebem que isso te faz falta ou
foram criados assim e como pode dar a você uma coisa que nunca conheceram?
No
final daquele mês, João se mudara com a família e ao se despedir de Maria,
combinaram de sempre se corresponderem.
Porém,
com a revolta da separação de seu único amigo, ela passou a ignorá-lo e rasgava
todas as cartas enviadas por ele, sem sequer abri-las.
Passados
cinco anos, o pai de João fora acometido por uma doença grave causando seu
afastamento da fabrica onde trabalhava.
João
já com 14 anos, acompanhava-o diariamente ao hospital público e ele mesmo é
quem tratava de todas as burocracias impostas pelo sistema de saúde.
Foi
cativando o carinho dos funcionários que se admiravam, ver aquele adolescente
estatura mediana, olhos expressivos, tentando amenizar o sofrimento, não só de
seu pai, quanto aos demais doentes.
Sempre
com compreensão, resignação e muito amor e graças a seu esforço conseguiu a
internação de seu pai.
Na
véspera da morte do seu pai, com muita dificuldade conseguiu manter um pequeno
diálogo com o filho:
-
Cheguei ao fim, querido filho, sinto não ter conseguido deixar você e sua mãe
com estabilidade financeira. O que será de vocês? Só deixarei lembranças desses
dias tão sofridos e duros... –um triste pranto o dominou e João o abraçou forte
dizendo:
-
Pai, o dinheiro é importante sim, porém se vivemos honestamente, um dia chega a
nossas mãos. Porém o amor, os diálogos sinceros, nossa amizade, são a melhor
herança que nos deixará.
Seu
pai estava muito emocionado e feliz agradecia a Deus em ter um filho tão
especial.
João
depois da morte de seu pai arrumou um emprego durante o dia e estudava a noite,
tinha um ideal, ser cirurgião, não por orgulho e sim com o objetivo de amenizar
o sofrimento daqueles necessitados assim como seu pai e tantas outras pessoas.
Sua
mãe era empregada domestica e fazia questão de voltar para casa todos os dias,
para estar com seu filho amado. João chegava a casa normalmente lá pelas
11h30min da noite, moravam numa pequena casa de apenas três cômodos que
representava um castelo para eles, já que era própria.
João estava com 18 anos e prestara concurso para a
faculdade de Medicina e numa tarde de domingo deitado na rede de seu quintal
observava suas sementes mágicas, plantadas logo que foram morar ali, estava
cada dia maior, forte, perfumado e harmonioso, notara que algumas não haviam
vingado, porém Vida se encarregaria de explicar ou quem sabe um dia se
encontraria com Maria.
Sua mãe carinhosamente levou um apetitoso lanche,
sentou-se a seu lado e perguntou:
- Meu filho, não se sente revoltado com esta vida tão
dura? Ter que trabalhar tão cedo enquanto seus amigos apenas estudam?
- Claro que não minha mãe, eu sou um bom aluno na
escola da vida, entendo suas lições. A senhora sabe da historia do rei e seu
conselheiro?
- Não filho, conte para sua velha mãe!
- Um dia, o rei e seu conselheiro saíram para caçar, como de habito. O rei errou o tiro e
perdeu seu dedo indicador, sendo socorrido por seu velho e leal conselheiro que
lhe dizia:
- Não se desespere meu rei, foi apenas um dedo, Deus sabe
o que faz!
- Deus sabe o que faz? Tirar o dedo de um rei, você
acha certo?
- Não importa o que
eu ache meu rei e sim que Deus sabe o que faz!
- Pois ficarás
confinado na masmorra até o fim de seus dias!
Disse o rei enfurecido enquanto o conselheiro de
cabeça erguida a caminho da clausura repetia: Deus sabe o que faz!
O rei
revoltado, olhando enojado com a complacência do conselheiro, lhe perguntou:
- Ficará o resto de sua
vida confinado e o que me diz?
- Deus sabe o que faz!
O rei cuspiu em sua cara e ordenou que o trancasse na
masmorra. Assim que o conselheiro foi confinado.
Anos depois o rei resolveu caçar sozinho, sem seu dedo
indicador e sem seu conselheiro. E ao chegar à floresta foi atacado por uma
tribo de canibais e gritou:
- Sou rei.
Os canibais nada entendiam, preparavam um enorme
caldeirão, despiram-no e
vira que lhe faltava um dedo. E o chefe da tribo gritou:
Soltem este infeliz! Falta-lhe um dedo, deve ser
leproso!
O rei montou em seu cavalo e saiu galopando sem olhar
pra trás.
Chegando ao castelo, ainda apavorado, ordenou que trouxessem
o conselheiro. Contou-lhe sobre o incidente e perguntou:
- Como me explica este acontecido, honestamente? Sei
que me odeias, afinal sou o responsável
por seu confinamento por todos estes anos, Deus sabe mesmo o que faz?
- Claro meu rei! E não
tenho porque ter ódio, se eu não estivesse confinado, teria ido com vossa majestade a
cassar, a tribo nos encontraria e em meu corpo não
falta nada, logo, eu seria devorado pelos canibais. Meu rei passou por um teste
de que Deus sabe o que faz!
A mãe
de João o olhava e pensava o quanto era nobre seu pequeno filho.
João
a cada dia se superava, passara no vestibular e cursava a sonhada Universidade
de Medicina, sempre o melhor aluno, querido por todos, amava a vida, a
natureza, agradecia todos os dias a visão que tivera com VIDA e pensava no
quanto teria para contar!
Os
anos se passaram João já estava com 45 anos de idade, um grande cirurgião,
casado, vivia numa bonita casa e um quintal plantado com as sementes mágicas.
Dirigia
o hospital, o mesmo onde morrera seu pai e já não o competia operar, porém ele
amigavelmente fazia questão de participar e muitas vezes orientar em casos
graves.
Estava
numa tarde olhando através da janela, nos dias difíceis que passara em sua
infância, o carinho dedicado por sua mãe que já não mais necessitava trabalhar
e lembrou que chegara o momento do encontro com VIDA. E Maria? Onde estaria?
Porque jamais respondera suas cartas?
Seus
pensamentos foram interrompidos ao ser chamado para uma emergência.
- Com
licença Dr.João, precisam de sua ajuda no centro cirúrgico.
Rumou
ao centro cirúrgico, fez sua assepsia e enquanto a instrumentadora colocava
suas luvas ele perguntou a equipe.
- Do
que se trata?
- Ela
sofreu um grave acidente bateu com o carro contra uma muralha, está totalmente
drogada.
-
Santo Deus!
A
cirurgia demorou cinco horas, varias costelas fraturadas que por pouco não
romperam seus pulmões, foi encaminhada a UTI.
Ao
chegar a casa, já amanhecendo, contou a sua mulher sobre a emergência:
- Não
entendo como as pessoas se machucam tanto, porque se drogam, porque se viciam.
Operei uma senhora esta madrugada, aparenta ter uns 70 anos, estava totalmente
drogada.
- Ela
estava sozinha?
-
Sim, seu estado ainda é muito grave. Vou tomar um banho e voltar ao hospital.
Chegando
ao hospital foi direto para a UTI e pediu a enfermeira o prontuário da paciente
ao ler seu nome, sentiu o chão saindo de seus pés. Era Maria, totalmente
acabada pelas drogas, aparentava 25 anos mais velhos. Ele suspirou e disse:
Pobre amiga!
Semanas
depois Maria foi transferida a uma enfermaria e já conseguia falar, João se
apresentou:
-
Lembra-se de mim Maria?
- Foi
você quem salvou minha vida, o que quer de mim? Quer meu agradecimento? Se for
isso esqueça, porque você não me salvou, prolongou meu sofrimento.
- Não
diga isto!
-
Quem você pensa que é? Um médico que se acha Deus? Que direito tinha de salvar
minha vida? Quando joguei o carro contra aquela muralha, estava certa que ia
morrer, porém tinham que me trazer pra cá! Eu te odeio!
-
Acalme-se, quando te perguntei se sabia quem eu era, não me referi ao medico e
sim ao João, seu amigo que anos atrás fizemos um pacto com a VIDA, lembra?
-
Maldita árvore e suas sementes podres, poucas vingaram, são daninhas,
rasteiras, espinhentas, venenosas e mal cheirosas, onde nascem vira um pântano,
não gostam de luz são horríveis!
João
olhava penalizado, pegou a mão de Maria e disse:
-
Querida amiga, você se lembra que a VIDA nos convocou a nos encontrarmos com
ela ao completarmos 45 anos?Porque não vamos até ela? Com certeza ela nos dará
a devida explicação.
-
Olhe pra mim João, estou acabada, desde nova a vida sempre me maltratou, meus
pais me expulsaram de casa aos dezoito anos, quando descobriram que eu já não
mais freqüentava o colégio, gastava todo dinheiro de minha mesada com drogas,
roubava, no inicio as coisas de casa pra sustentar meu vício. Quando me vi na
rua me prostituí vendendo meu corpo. Até que conheci um traficante, nos
apaixonamos e vivemos juntos por 15 anos, até o ano passado, quando um pai
desesperado ao vir seu único filho de apenas 14 anos de idade morrer de
overdose, soube que o fornecedor era meu companheiro, invadiu nossa casa
armado, disparou contra o peito de meu marido e restando uma bala ele atirou
contra sua própria cabeça.
Este
infeliz acabou com sua vida e ainda a do homem que me deu carinho e me tirou da
prostituição.
Desolada
virei peregrina viajando sem destino tentando esquecer esta vida miserável e
injusta, deste mundo egoísta. Porém as lembranças do passado não me abandonam
em meu coração aloja-se um enorme ódio de todos e pena de mim. Não sei o que
fiz para sofrer tanto assim. Por que Deus me odeia tanto João?
-
Deus é pura bondade querida amiga, somos nós mesmos que nos punimos, não somos
os únicos sofredores, te contarei alguns fatos que presenciei neste hospital.
João
narrou historias verdadeiras presenciadas por ele ao longo de sua vida, porém
Maria ouvia distante mergulhada em seu sofrimento. Percebendo a indiferença,
ele entendeu que não adiantariam argumentos que melhorasse sua alta estima.
Afinal levara a vida por caminhos tortuosos, não foi forte o suficiente para
enxergar as armadilhas do mundo, caiu num abismo, foi ao fundo do poço.
Precisava de um tempo para emergir e mais que nunca de amor.
Ele
acreditava que havia uma sementinha alojada em cada um de nos e que um dia, não
importando a idade, sexo, cor, religião ou classe social, despertaríamos nossa
consciência para a existência. Quanto a Maria, somente VIDA poderia tirar-lhe
daquela profunda depressão.
... O
reencontro com VIDA...
Após
alguns meses João conseguiu convencer a Maria a reencontrar-se com VIDA.
Tantos
anos se passaram e lá estava VIDA, mais velha, linda, irradiando luz e exalando
um suave perfume.
João
emocionado abraçou a Maria, esta imóvel com os olhos estatelados não retribuiu,
apenas estendeu a mão para que ele a segurasse.
João
ajoelhou-se aos pés de VIDA e soluçando murmurou:
-
Querida VIDA perdoe meu pranto estou muito emocionado, sinto como se estivera
morto e prestando conta de minha vida.
Maria
com olhar de censura falou:
-
Você enlouqueceu mesmo, não vê que tudo isto não passa de uma ilusão de duas
crianças? Quem não percebe que esta é uma árvore velha que jamais falou, sequer
percebe nossa presença e não passa de um vegetal. Francamente não sei onde eu
estava com a cabeça quando aceitei vir até aqui. Vou embora.
De
repente da arvore caíram pingos como se fossem lágrimas. E João comovido falou:
- Ela
esta chorando! Por favor, VIDA não chore, não fique triste, Maria é revoltada e
amarga, com tudo e com todos.
- Não
estou triste minha criança, choro de felicidade. Feliz por acreditarem em mim.
...O
esclarecimento...
- Eu,
a árvore, simboliza a vida, minhas sementes são o caminhar, a forma de
conduzirmos a nossa vida dependerá do nosso caráter, sendo assim fundamental
para nossa evolução. Você João só semeou as boas sementes. Quando perdeu seu
pai aos 14 anos de idade, não se revoltou, colheste a semente da compreensão;
ao trabalhar para sustentar sua mãe, a maturidade; quando sua mãe se lamentava
ao vê-lo tão cedo trabalhar, a sabedoria, sempre com palavras e gestos de amor;
ao estudar, a força; ao se formar, a garra; ao salvar vidas principalmente da
Maria, colheu a mais valiosa delas, a semente do amor.
Deve
ter notado que algumas não vingaram, pois esta você não as plantou e sim Maria.
Ela
teve seus pais de classe media alta, nunca precisou trabalhar tudo que pedia ou
sonhava recebia de seus pais. Porém nesta família não havia amor, seus pais só
pensavam em enriquecer e achavam que cobri-la de presentes supria a falta de
diálogos e carinho. Só que estas coisas são matérias e não fundamentais.
Vejam
no que deu! Uma jovem inocente, carente de amor e compreensão, sem orientação,
cai no mundo das drogas, colhe sua primeira semente: a ignorância; ao roubar, a
ganância; ao sair de casa expulsa pelos pais, o ódio; ao se prostituir, o
rancor; ao se unir a um contraventor, a inveja; ao tentar suicídio, a
autopiedade; e agora ao me destratar, a vingança. Pois em sua cabeça passa que
eu fui a culpada por fazê-la viver desta forma.
Não
minha querida Maria, não culpe a VIDA por colher as sementes podres. Olhe
dentro de seu coração e veja que existe uma sementinha secando, precisando ser
regada, nunca é tarde! Cuide dela, regue-a todos os dias, horas, minutos e
segundos, não viva no passado, simplesmente pense no que já passaste, limpe sua
plantação daninha, elimine-a, queime-a, deixe que as boas sementes floresçam e
tenha certeza de uma coisa: Nunca é tarde para recomeçar! Não tenha vergonha de
encarar seus erros e sim se orgulhe em poder enxergar e corrigi-los, não tenha
medo nem vergonha de amar e saber perdoar.
Maria
recapitulou toda sua vida e chorou compulsivamente, levantou a cabeça e os
braços para o céu e perguntou a VIDA:
-
Como regar esta semente?
- Mergulhe
profundo em seu interior, reflexione, perdoe aqueles que culpam por seus
deslizes, converse com Deus.
Maria
abraçou a João e a VIDA, saiu caminhando com passos largos e saltitantes até
que encontrou uma bifurcação com dois caminhos, parou, observou que um deles
era florido e alegre o outro escuro e triste parecidos com suas sementes e
pensou:
-
Nunca é tarde para recomeçar. – E rumou pelo caminho das flores!
Esta
é a lenda da VIDA e em toda lenda sempre tem um final feliz.
Porque
não tornarmos nossas vidas em lendas?
Capítulo doze
A Realização do Sonho
Eu ia
completar 20 anos e tia Regina 55; nossos aniversários são no mesmo mês, no ano
anterior ela havia lançado o livro prometido a minha avó o qual obteve grande
êxito e na noite de meu aniversario, foi o lançamento do seu terceiro livro.
O
evento foi numa pequena livraria no centro da cidade. Ela estava linda, sentada
a uma mesa autografando e uma enorme fila, quando avistei um homem alto, corpo
atlético, calças jeans, camisa de linho azul claro, cabelos grisalhos e
encaracolados, olhos verdes, pele bronzeada e um livro nas mãos.
Corri
para perto dela, eu não estava sonhando, era real! Não podia perder o mínimo
detalhe, minha ansiedade era tão grande que podia escutar as batidas de meu
coração. Ele se aproximou dela e disse:
-Regina
Magalhães?
-
Sim! – Ela respondeu, com os olhos arregalados, enquanto levantava-se
lentamente arrastando a cadeira para trás, estendendo a mão para
cumprimentá-lo.
- Sou Juan Carlos, também escritor. Queria
dizer-te que me encantou seu romance e o trouxe para que me autografe.
Foi o
que pude entender e imaginar, pois ele falava espanhol!
- Meu
Deus, você existe! Só falta o beijo!
Juan
Carlos, sorrindo beijou seu rosto e a abraçou fortemente, parecia que os dois
se conheciam há muitos anos.
Um
mês depois se casaram. A cerimônia foi a mais linda que presenciei, mística.
Alugaram
uma casa de festas, na Lagoa Rodrigo de Freitas, num grande salão e a decoração
feita por tia Regina.
O que não poderia deixar de ser. Afinal ambos
eram exotéricos!
Logo
na entrada havia muitas plantas, flores e cristais posicionados ao norte,
representando o elemento Terra.
Ao
leste, incensos e luzes, elemento Ar.
Ao
oeste uma linda fonte, elemento Água.
E ao
sul chamas coloridas, elemento fogo.
No
centro do salão, rodeado pelos quatros elementos, foi erguido um altar que era
uma tenda branca, decorada com camélias e jasmins.
Sob
este, um conjunto de lâmpadas com as sete cores primárias: vermelho, laranja,
amarela, verde, azul índigo e violeta.
Eu
sempre convivi com sua alegria contagiante, porém naquele dia estava muito
emocionado.
Ela
estava linda! Embora seus 55 anos de idade aparentasse 40! Vestia um longo de
renda azul celestial, sapatos forrados com o mesmo tecido do vestido, cabelo
preso com um arranjo de minúsculas pedrinhas de cristal, azul é claro!
Em
suas mãos um arranjo de flores do campo!
Sara
foi à dama de honra, junto com o casal de Roberta.
Entrou
com passos lentos e chorava muito. Juan Carlos a esperava no altar, ao lado de
minha avó. Estava todo de branco realçando sua pele bronzeada e seus olhos
verdes.
A
cerimônia foi mágica!O oficiante traçou um círculo em volta do altar e disse:
-“Hoje
chegam juntas a este círculo mágico pedindo a benção dos Antigos para sua
união. Que seja este um círculo um local de amor, honra e paz.”
E
convocou aos noivos a dizerem as seguintes palavras:
-Agora
não sentiremos nenhuma chuva, pois um será o abrigo do outro.
Agora
não sentiremos frio, pois um será o calor do outro. E a partir de agora seremos
dois corpos, porém uma só vida.
No final estávamos todos chorando!
Outro
momento mágico foi quando Juan Carlos
Pegou
uma taça de vinho, tomou um gole e ofereceu a Tia Regina, depois ele envolveu a
taça num lenço e quebrou com os pés.
O
círculo mágico foi apagado, eles se beijaram e saíram abraçados. O noivo com
sua linda voz de locutor falou:
-
Peço a todos alguns minutos de atenção, serei breve, prometo isso não é um
discurso.
Todos
nós riamos e ele falou:
-
Conheci Regina, pessoalmente, a pouco mais de um mês. Apaixonei-me por ela,
quando li seu livro á um ano. Hoje a conhecendo realmente, estou mais
apaixonado.
Sou o
homem mais feliz do mundo, sabendo que faço parte de seus sonhos...
Tia
Regina emocionada apertou minha mão, enquanto Juan Carlos continuava seu
discurso e sussurrando em meu ouvido, murmurou:
- Não
me belisque, porque se este for um sonho, jamais quero despertar!
CAPITULO TREZE
Quanta
felicidade, eu senti, ao ver seu sonho realizado. Ela provou que se queremos
muito alguma coisa, sonhe, sonhe muito, idealizando-o, planejando-o dando
condições para sua realização! Porque somos todos filhos de Deus, Ele é pura
luz e bondade e só deseja nosso bem.
Dizia
que temos que nos amar para poder doar amor.
E o
bem é a felicidade, pensar sempre positivo, viver sem ódio em nossos corações,
ser ambicioso e não invejoso, ser tolerante e não passivo e submisso. Ser
consciente de que colhemos o que semeamos.
Seu
sonho era o verdadeiro amor, ser amada, encontrar sua alma gêmea, ajudar ao
próximo e poder proporcionar uma vida melhor para toda a humanidade!
EPÍLOGO
Onde está tia Regina agora?
- Viajando pelo mundo, completou 68 anos de idade, eles montaram uma clinica de reabilitação para crianças e adolescentes, conseguem ajudar a muitos carentes e estão se expandindo por todo o mundo.
Eles conseguem manter este verdadeiro sonho com vendas de livros e palestras Mundiais.
Porque política e comércio nunca fizeram parte de seus sonhos.
OH! Quantas saudades de minha tia Regina.
FIM
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