domingo, 28 de julho de 2013

Nota da Autora:


Tia Regina, uma mulher que nunca teve filhos, e admira seus sobrinhos, como se estes fossem seus.
Esta é uma história narrada com grande admiração por um (a) de seu sobrinho (a).

Ela conta histórias a seus sobrinhos, e a cada uma encerra um ensinamento.

Uma mulher consciente e madura que sonha com a felicidade. Considerada por todos como louca, por seguir suas intuições.

Porém ela prova que ser sonhadora com os pés no chão é uma forma de vencer e consequentemente ter seus sonhos realizados.

Indico essa obra a todos aqueles que vivem a vida em preto e branco, deixando se levar por momentos tão sofridos aos quais encaramos nos dias de hoje.





                                                                                                               










O Sonho de Tia Regina


by: marciarmguimarães


























Palavras da autora:


Escrever, um sonho que eu tinha desde muito jovem, porém quando queremos uma coisa, temos que persistir e levar adiante este desejo.

Assim que tomei coragem e dei inicio a subida dessa escada, e conseguindo apoio de minha mãe, fã incondicional.
O sonho foi realizado.

No natal de 2003, presenteei aos amigos e familiares um exemplar artesanal desta historia.

E no dia 31 de dezembro deste mesmo ano desembarquei no aeroporto de Santiago, e lá encontrei uma editora, a qual editou meu livro em menos de um ano. O lançamento foi um êxito! Com quatro edições esgotadas.

Viajei convidada por quase toda América do Sul e parte da Europa, para divulgação deste livro.  Fiz grandes amizades nestes países: Uruguai, todo o Chile, boa parte da Argentina,
Peru, Tarija-Bolivia, Suíça, Itália e França.

Queridos leitores, sonhar com os pés no chão faz parte de nossas realizações.
















Agradecimentos:


Á minha amada mãe, falecida no dia 21 de dezembro de 2009. Que estará eternamente presente em minha vida, torcendo para que eu siga essa jornada, com toda felicidade que ela sempre me desejou.


Aos meus queridos amigos e confidentes, pela atenção e paciência de lerem a cada capítulo. Torcendo e incentivando para sua publicação.
Obrigada Kátia Pérola por sua admiração e força, pois se não fosse você, este livro estaria arquivado aqui no Brasil.

A minha amada família e especialmente a Kelly
Bandeira, minha sobrinha querida, que criou esta página para que fosse publicado este livro.





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Capítulo ZERO

Tia Regina

Todos criticavam tia Regina e seus sonhos, diziam que ela vivia no mundo da lua e voando.

Em realidade com ela aprendemos como um sonho pode ser realizado.

Hoje voltando ao passado, quando ainda éramos crianças , me fazem brotar lágrimas saudosas.

Tia Regina é normal?

 Perguntavam naquela época; eu também tinha minhas duvidas!

Ela não teve uma vida de rainha, passou por momentos amargos e sei que a fizeram chorar, porem nunca deixou a peteca cair, sempre teve coragem de enfrentar o monstro de olhos abertos, intuía o caminho e graças a sua intuição conseguiu realizar o impossível para a maioria.

Provou que ser sonhadora era normal, que as fantasias fazem parte de nossa felicidade.

Seu lema era: O show tem que continuar!

Contarei sobre essa personagem e meus melhores momentos junto a ela.


 









Capitulo um

Oh! Quantas saudades de
Minha tia Regina


Quando nasci ela estava com 35 anos. Magra, baixa, um corpo tipo violão, por ter uma cintura fina e quadril grande, pele clara, pernas de atriz italiana, cabelos ruivos, olhos verdes, nariz afilado e lábios grossos, não era uma beleza extraordinária tipo Sofia Loren ou Gina Lollobrigida, tinha um encanto próprio, distinta, luminosa, uma pessoa transparente, sem papas na língua.

Na realidade, estava sempre contente e ria com nossas peraltices, só havia uma coisa que ela virava fera, era quando alguém nos contrariava isso ela jamais permitia.




























Capitulo dois


Gente é Gente e Bicho é Bicho

 Meu primo estava com três anos e foi com tia Regina numa pracinha em Copacabana, ele adorava animais, quando viu uma senhora com um cachorro, correu para tocá-lo e a mulher se afastou não permitindo brincadeiras. Indignada tia Regina perguntou se o bichinho mordia, a resposta foi não, deixando bem claro que não queria que ninguém tocasse em sua mascote, uma demonstração de egoísmo fazendo a gentil tia Regina sair do sério. Ela o pegou no colo e disse:
-- Vamos brincar no parque, este pobre cachorro não é brinquedo e sendo um animal pode te transmitir doenças, você ainda e muito inocente para entender que gente é gente e bicho é bicho.

A senhora quase fulminou minha tia com um olhar de reprovação, esta, sabia fazer-se de indiferente quando precisava, não sei como ela conseguia franzir a boca de uma forma que assustava. Tia Regina adorava aos animais, a todos, não considerava justo prende-los num minúsculo apartamento, privando-os de sua liberdade natural, e disse:

_ Quando se ama de verdade a um animal não se cria em cativeiros, à maioria dos seres humanos confunde suas emoções. Veja esta senhora, deve viver sozinha e divide sua solidão com este pobre cachorro! Você sabe o que isto significa?
_ Perguntou a meu priminho.
_ Não. – respondeu – correndo para o balanço e pediu a resposta.
_ Egoísmo. – ela respondeu em alto e bom tom.
_ O que é egoísmo? – ele perguntou -
_ São as pessoas que não sabem compartilhar.
_ E o que compartilhar? – outra pergunta -
_Vou te dar um exemplo: Imagine num aniversario, com muitas crianças e um bolo pequeno, se é uma pessoa egoísta que reparte vai separar para ela o maior pedaço.
_ Entendi, são as pessoas que sempre ficam com a maior parte só pra elas.
_Muito bem! Exclamou!
Essa era uma de suas tantas qualidades, ela falava com as crianças de igual para igual, entendia que tínhamos potencial.
























Capítulo três

O Sonho


Eu e meus primos não entendíamos por que ela nunca teve um filho e jamais se casara. Sendo uma mulher bonita, inteligente e cortejada por todos aonde chegasse.

Jamais nos negava nada, e somente hoje, aos meus trinta e cinco anos. Entendo que ela sabia dizer NÃO com desenvoltura. Porque a sua maneira, sempre a obedecíamos.

Cresci ouvindo e admirando suas historias, eram as horas mais felizes! E quando lhe perguntávamos por que não tinha se casado ou tido filhos, ela nos respondia:

_ Espero a meu príncipe encantado!
_ Você já o conhece? Onde está ele?
_ Ele está em algum lugar deste planeta, inteligente, maduro, médico e escritor, seu rosto tem fortes linhas como de um grego, olhos verdes, cabelos grisalhos e encaracolados, voz grossa como a de um locutor de rádio, fala espanhol e tem 1:90 de altura!
 _ É rico?
  _ Tem uma situação financeira estável, mas isso não me importa!
_Ele è velho?
_ Não é mais novo que eu, três filhos e viúvo. Conhecemo-nos de vidas passadas.
Essa era uma de suas peculiaridades: esotérica, metade bruxa e metade cigana. Adorava fantasiar, viajar, dançar, conversar e namorar a moda antiga, dizia ser mais romântico. Seus sentimentos mudavam como o vento, mas eram intensos, assim que sempre estava apaixonada, porque seu coração pertencia a Juan Carlos!

Um senhor italiano amigo dela apelidou-a de banda e perguntávamos por quê? E ela sorrindo nos respondia:
_ Quando passa uma banda, todos acompanham velhos, crianças, cachorros, assim sou eu!
_ E você adora né tia? – E seu grande amor, também é da banda?
_ Ele e um pouco tímido, mas de um coração generoso, irradia luz!
_ Como é que sabe tanto a respeito dele? Vocês se conhecem e não quer nos contar? Vai tia conte-nos a verdade!

 Suspirou profundamente, levou a mão direita ao coração, fechou os olhos, curvando a cabeça pra traz, fazendo voar seus longos cabelos e disse:

_ Contarei a todos vocês: O verdadeiro amor é eterno de muitas vidas. E sei que um dia ele aparecerá e me perguntará:
_ Regina Magalhães?
_ Sim, responderei.
Ele me beijará longamente, nos casaremos e viajaremos pelo mundo ajudando crianças carentes.
_ Ai tia, você é louca?
_ Só porque tenho um sonho? Sonhar não è loucura! Não se vive de sonhos, mas podemos e devemos sonhar para viver. Se quisermos muito uma coisa imagine, entregue seu desejo ao universo, sem que percebamos esta imagem vai se consolidando até que se torna realidade.

_ Muito bem, _ disse Claudinho: _Suponha que tenha notas baixas em matemática, não estudo, sonhando com um dez na prova, porém quando me entregam o resultado, Reprovado.
_Ah! Isso è claro, vais tirar um bonito ZERO, temos que fazer a nossa parte, não se sonha por sonhar. Se você estudar para as provas, sem bloqueios, sem medo e conscientizando-se de sua capacidade, pensando positivamente, seu sonho sempre se realizará. Quando eu estava no segundo ano ginasial, não tinha muito tempo para estudar, precisava tomar conta de minhas irmãs. Tínhamos quatro provas ao ano e precisávamos somar vinte pontos na média final, eu estava mal em ciências e pedi ajuda a minha mãe, ela sem tempo me ensinava enquanto fazia o almoço. Esta era a última prova do ano, estudei muito.
Na minha sala de aula havia uma menina chamada Sueid, que sempre tirava as melhores notas, nunca foi para a final.
Porem no dia da entrega das provas de ciência o professor fez o maior suspense, e disse:
_ Estou muito decepcionado com vocês, hoje inverterei o jogo e chamarei primeiro as melhores notas, porem, reservei uma prova para comentar no final.
E logo a primeira foi da Sueid com 7,5. Bem todas as provas foram entregues, menos a minha! Tive vontade de sair correndo e nunca mais voltar a estudar, pensava desesperada: _ Tirei zero!
Ate que ele me chamou e pediu a todas as alunas que levantassem. E disse:
_ Regina Magalhães, eu reservei sua nota para o final:
 _Tirei zero?Perguntei.
_ Não minha querida, sua nota foi dez.
_ Dez?
_ Sim, acredite, hoje, ao chegar a casa fale com sua mãe, abrace-a e lhe agradeça.

Não pude controlar minhas lagrimas, fui cumprimentada por todas minhas colegas do grupo.
Naquele ginásio todos me admiravam por conhecer minha origem humilde, principalmente o professor Agras. Neste dia ele nos contou que o sonho de sua mãe era que ele estudasse medicina, e ele não tinha a menor vocação, assim que passou um bom tempo, enrolando a pobre senhora, a qual estava muito doente, ao se interar de sua enfermidade, resolveu empenhar-se, em passar na faculdade de medicina. Porém no dia do resultado dos exames ao ver que havia passado, foi correndo dar a boa noticia a sua mãe!
Ao chegar, esta havia sofrido um infarto fulminante. Por isso ele nos incentivava a estudar, acho que ele sempre se culpou.


Ah! Minha doce tia Regina. Sabiamente aprendia as lições da vida! Eu adorava quando ela dizia:_ Contarei uma historia _ Ela se sentava no sofá, deitávamos no seu colo,  acariciava nossos cabelos com suas pequenas mãos e iniciava a narrativa.

















Capítulo quatro

O Velho Rabugento


Era uma vez, uma casa de dez quartos, e esta pertencia a um ancião que vivia resmungando. Uma casa comum, mas que encerrava um grande mistério, um quarto de frente ao do dono da casa.

Trinta anos antes, ele havia enviuvado e convidou seu filho para morar no casarão. Este desempregado com três filhos pequenos e contra a vontade de sua mulher submeteu-se ao sacrifício de viver à custa do pai rabugento. O velho, logo no primeiro dia de convivência, ordenou:
_ Ninguém pode entrar neste quarto.
 A porta vivia trancada, a sete chaves. Despertando uma grande curiosidade nos habitantes recém-chegados, dando asas a imaginação, as mais absurdas, iniciando pelo casal, depois em seus filhos e finalmente nos bisnetos.

Tiveram que conviver e fantasiar suas curiosidades, afinal, um dia o pobre senhor, viria a morrer e finalmente terminaria o pesadelo.

Passaram-se os anos, e todos viviam à custa do pobre ancião, não trabalhavam, na escola eram sempre os piores alunos.

Todos tinham o mesmo sonho: O dia da morte do velho rabugento! Este dia era esperado como as soluções para suas vidas. Pensavam haver ali um tesouro, como o do Tio Patinhas, cheio de moedas de ouro.

E este dia chegou, o rabugento morreu, e seu corpo ainda quente, um dos netos, rapidamente, pegou a chave e abriu a porta proibida.
Tamanho foi o susto, que o jovem gritou forte e caiu desmaiado. No quarto totalmente vazio, sem nada, sequer um móvel, havia uma janela trancada com um pequeno bilhete amarelado, escrito a mais de três décadas atrás:

ª COM CURIOSIDADE SE VIVE, MAS VIVER NA PASSIVIDADE É UM DECLIVE.


_ Que velho louco! – lembro-me que exclamamos ao termino desta historia. E tia Regina nos esclareceu:
_ O velho rabugento ensinou a sua família que na vida não se sobrevive a sonhos sem fundamentos.

Nem sempre suas historias eram convincentes, mas me encantavam!


Claudinho estava com 14 anos e sua irmã,  de apenas dois anos, foram passar um final de semana em seu apartamento, isso sim era um sonho para nós! Ela virava criança.
Lá chegando, a pequenina foi até o quarto, enquanto meu primo e seus pais estavam na sala conversando. Quando der repente, escutaram um tremendo barulho de louça quebrando. Tia Regina correu na frente, e todos a seguiram. Lá estava à pequena, com cara de cachorro quando quebra o vaso, assustada se jogou nos braços da defensora de menores, que acariciava as costas da Ré já em pranto.
_ Não foi nada meu anjinho, cuidado para não se cortar.
_ Eu só queria botar o chapéu titia!
_ Ah, mas este chapéu era para a lâmpada, não servia pra sua cabeça.
_ Você compra um pra minha cabeça?
_Claro que sim!

Sara no colo de tia Regina como se esta fosse uma redoma, esperava a bronca de sua mãe. A situação tornou-se engraçada, porque tia Regina já estava acostumada com as reprovações de sua irmã, que lhe aplicava um sermão:
_ Não é assim que se educa Regina! Eu estava junto quando compraste este abajur, caríssimo e o único que havia na loja, sei muito bem que era seu sonho de consumo, seus olhos brilhavam quando o compraste. A menina quebra e não diz nada, pior ainda, promete comprar um chapéu? Está cometendo um grande erro.
_ Mãe educa e tia deseduca, nunca tive filhos e como vocês mesmas dizem, se os tivesse, os mal criaria, afinal, que fez de errado esta menina? Viu um abajur raro e por curiosidade ela quis usá-lo, uma coisa normal, uma perda felizmente material!
_ Bem, a casa é sua, as coisas são suas e o problema é seu.
_ Problema? Você vê nisso um problema? E de quem é esta casa? – perguntou tia Regina tentando conter o choro da pequena Sara ainda agarrada ao seu pescoço e respondeu:
_ É minha!
_ Isso, afirmava tia Regina.
_ Não posso aceitar isso. – disse minha tia contrariada – Não confunda a cabeça dela! – continuava sua teoria, agora se dirigindo a Sara:
_ Esta casa é da titia, a sua é onde moramos.
_ Sabe de uma coisa? Estou cansada dessa psicologia teórica que vocês usam agora. Enchendo a cabeça das crianças com realidades antes do tempo! Infância é somente uma, e passa muito rápido, se recriminamos tudo que fazem, crescem adultos amargos, egoístas, donos da verdade e realistas em excesso. _ Disse tia Regina já sem paciência com meus tios.
Coisa normal, depois disso, tomou um delicioso lanche e meus tios se foram, ficaram meus primos desfrutando o mundo mágico de minha tia amada. Ela pulava corda, dava cambalhota e ensinava brincadeiras e canções de sua infância, eles estavam tão felizes que não sentiram o tempo passar.
Sara falava sem parar, provocando gargalhadas em tia Regina, que incentivava o mundo imaginário, nisso ela era mestra. E anotava tudo em um caderno inseparável, ali continha coisas de todos nós, seus sobrinhos. A primeira personagem foi Roberta, minha prima mais velha. Lembro-me de ter lido nesse seu diário, esta passagem com ela: Estava com dois anos e tentava falar tudo correto, um dia ela se aborreceu com minha avó que assistia a sua novela na televisão, e Roberta se queixou com tia Regina:
_ Tia, eu pido, pido a minha avó e ela nada!
_ O meu anjinho, não é pido, é eu peço.
_ Então, eu pecei, pecei e ela nada!

Bem, nessa noite ela contou a seguinte história:





































Capítulo cinco

Simão e Dimas, dois pintinhos.

Era uma vez, num grande quintal, nasceram dois pintinhos: Simão e Dimas. Simão era metido e valente, Dimas ao contrario, humilde e medroso. Mal saíram do ovo, olhando o tamanho do pátio, Simão disse a Dimas:
_ Este é o mundo irmãozinho! E deve ser emocionante poder conhecer todo o terreno, vamos lá!
_ Ai, me dá medo, deve ser perigoso.
_ Não seja bobo. Veja! Tem patinhos no lago! Vamos nadar!
_ Espera, vou perguntar a mamãe se podemos nadar.
_ Vá, pergunte claro que podemos nadar, somos aves seu ignorante.

Simão saiu correndo em direção ao lago, mergulhou e afundou. Por sorte, um jacaré que nadava tranquilamente, abriu a boca e o salvou do fundo do lago, colocando-o na beira. Salvo Simão olhou nos olhos do jacaré, que estava com o corpo emergido e a cabeça apoiada na grama, e disse.
_ Obrigado por salvar-me.
_ Não há de que, seu tonto. De onde tirou essa idéia de que pinto pode nadar?
_ Mas sou uma ave, não sou?
_ Sim. – respondeu o jacaré.
_ E pato? O que é um pato? Não é uma ave? Ou pato é peixe?
_ Céus, um pato é ave e pode nadar.
_ E jacaré é peixe?
_ Não, somos répteis.
_ Que complicação! Vou subir naquela arvore e voar!
_ O Mané, você é suicida?
_ Claro que não, por quê?
_ Porque os pintos não voam.
_ Os pássaros não são aves?
_ São.
_ Por isso, as aves voam ou nadam, já que eu não nado! Posso voar!
_ Mas você não é um passarinho. Cansei você é uma cabeça dura, tenho mais o que fazer. Fui.

O jacaré mergulhou deixando Simão na beira do lago pensativo:
... Que mundo é este? Tem aves que voam, outras nadam. Jacaré que nada e não e peixe... Ah! Onde me encaixo nessa vida? – Bem, acabo de nascer, tenho muito a aprender.


Minha prima dormiu no meio da historia e Claudinho tentou esclarecer algumas dúvidas, mas tia Regina também estava dormindo.

Raramente ela lia historias, precisava usar óculos e sua vaidade não permitia. Gostava de interpretá-las, havia momentos tão bem representados, que em nossa imaginação parecia estar ali presente vários personagens, como num teatro.

Perguntávamos por que ela não havia entrado para uma escola de Teatro e respondia:

_ Sou uma atriz formada pela escola da vida, onde os melhores são sempre aqueles que trabalham com o coração.


Sua casa estava sempre cheia de amigos que a procuravam para desabafarem sobre seus problemas, ela os ouvia atentamente e sempre terminava com um bom conselho.

Era contadora, trabalhava numa empresa de Petróleo, não que fosse essa sua escolha por vocação, e sim por opção. Um dia eu a perguntei:

- Por que não entrou para a área médica como psicologia?
_ Eu era muito pobre, quando pequena sonhava sim em entrar para esta área, porém mesmo que eu fosse aprovada, não teria como arcar com os custos, pois os cursos desta área exigiam estudo em horário integral e eu precisava trabalhar para garantir minha sobrevivência. Assim que optei por uma área na qual eu pude trabalhar e estudar a noite. Logo que me aposente vou dedicar-me a escrever para crianças, adolescentes, carentes, etc. Por enquanto vou construindo meu pezinho de meia, viver do que se escreve é muito frustrante financeiramente.


Como eu admirava sua forma de ser, sonhar com os pés no chão, no fundo ela nunca pensou como adulta.
Uma vez foram ao supermercado, enquanto minha tia passava com as compras pelo caixa, tia Regina passou à frente para adiantar guardando a mercadoria, foi interditada por um garoto de quatro anos, que brigava com ela dizendo:
- Por aqui ninguém pode passar.
- Mas este cachorrinho quer sair.
- Ele também não pode.
Débora observava a cena com sua mãe e não havia cachorro nenhum, eles apontavam, conversavam, discutiam como se o animalzinho estivesse presente.
- Pobrezinho, ele vai chorar, Ih! Quer fazer pipi, o guarda vai brigar com ele.
- Eu sou o guarda aqui. – disse o pirralho –
- Ok, veja seu guarda ele vai para a rua!
- Não, ele não pode ir sozinho para a rua, é muito perigoso.

Em poucos instantes o moleque já estava no colo de minha tia, contando toda sua vida e beijando-a.
Minha tia já estava irritada com o menino, pegou as bolsas e saiu resmungando, tia Regina se despediu e foi ao encontro delas, como não podia faltar à velha pergunta, minha tia disse:
- Regina é normal?

Ela estava sempre sorrindo, nunca a vi reclamando, era positiva e dizia que Deus nos dá uma cruz com o peso que podemos carregar.

Quando menina foi vitima de abuso sexual, vivia em uma cidade do interior do Estado do Rio, com apenas 2.000 habitantes, tinha um ano quando foi viver ali com meus avôs. As crianças desfrutavam da natureza e da liberdade, animais eram criados nas ruas.
Naquela cidade, a garotada achava comum brincar de boneca, jogar futebol, pular carniça, da mesma forma que exploravam sua sexualidade.

Uma vez nos contou esta passagem de sua infância:













































Capítulo seis

Assédio Sexual Infantil


Eu tinha apenas sete anos, quando chegaram da Capital, um primo de minha mãe, com um homem que hoje imagino que deveria ter uns 35 anos de idade, eu adorava um morro perto de casa, assim que o convidei a conhecê-lo. Chegando, ele me olhava de uma forma diferente, sentou numa pedra para descansar e me disse que eu parecia com uma atriz norte-americana chamada Rita Hayworth. E lhe perguntei:
- Quem é? Eu nunca ouvi falar dela.
- Ela é linda como você, ruiva e sardenta.
- Eu não gosto dessas sardas, muito menos dos cabelos vermelhos, espero que sumam quando eu crescer.
- Quantos anos você tem?
- Sete.
- Somente? Sente aqui perto de mim.

Quando vi, ele estava com o pênis pra fora da calça, movendo-o com as mãos. Fingi que não vi e disse:
- Olha que flor linda! Vamos já esta na hora do almoço!


Desci o morro correndo como uma cabrita.  Entrei sem olhar ou falar com ninguém. Daí em diante nunca mais ficava ou permitia que minhas irmãs ficassem a sós com ele.

- E você não contou nada a seus pais?
- Não, a ninguém. Quando uma criança é assediada ela se sente culpada, tem medo de que não acreditem nela, porque sempre é a palavra dela contra a de um adulto.
- Mais meus avôs teriam acreditado em você.
- Eu sempre fui muito curiosa, e pensar em sexo ou se conhecer era considerado pecado. Por isso fiquei com medo de falar com eles. Hoje temos mais informação e diálogo com nossos pais, até mesmo nas escolas, naquela época o pouco que sabíamos era escondido, sempre através de uma amiguinha.
Porém em qualquer época uma pessoa mais velha assediar a uma criança é um crime inafiançável.


Contou-nos também que nesta mesma cidade vivia um casal de velhinhos que não tinham filhos e sempre a convidavam para dormir em sua casa, porque ela alegrava o ambiente com seu jeito meigo de ser.
Em uma noite, enquanto a senhora preparava o jantar pediu a tia Regina que fizesse companhia a seu marido dizendo-lhe: - Ele sabe desenhar muito bem –.
Tia Regina então foi até a sala e pediu ao senhor que lhe fizesse um desenho e ele respondeu:
- Com todo prazer, pegue o lápis. – disse ele com um tom insinuador e ela inocentemente lhe perguntou:
- Onde está?
E o velho pegou a mão de minha tia e colocou-a em seu pênis. Felizmente ela não era boba, fingindo que nada acontecia, voltou para a cozinha, sem comentar com ninguém, sentiu pena da senhora a qual ela amava como uma avó.

Naquela noite passamos por varias horas conversando sobre o abuso sexual e ela terminou dizendo-nos:

- Minha infância foi há muito tempo atrás, naquela época não se falava sobre os abusos, somente quando era um crime de repercussão nacional, como foi, por exemplo, o caso da Fera da Penha, uma mulher que matou e incendiou uma menina de sete anos no bairro da Penha. Hoje esses crimes continuam acontecendo, mas felizmente temos organizações em defesa de crianças e adolescentes.
- Então estas organizações não servem de nada?
- Claro que servem e benditas sejam, hoje as crianças estão legalmente amparadas, não necessitam temer pela incredibilidade de sua palavra.

E com os olhos cheios de água, balançou a cabeça, pois esta era a forma de disfarçar, enxugou as lágrimas com os dedos indicadores e suspirando nos disse:

- Se eu pudesse seria o anjo da guarda de todas as crianças, não permitiria que nada de mau lhes acontecesse.
- Mas você é nosso anjo!
- Tenham certeza que sempre estarei aqui para ajudar.
- E quando você morrer?
- Nunca morremos, somente mudamos de dimensão.
- Então por que choramos quando morre alguém?
- Somos imperfeitos, por isso nossos espíritos vivem morrendo nesta vida e despertando em outra. Sofremos com a morte, temos saudades quando perdemos um familiar, porque ainda não nos conscientizamos de que a morte é uma passagem para nossa evolução espiritual. Por isso é que um dia escreverei para crianças, quero deixar um pedaço de mim, isto é: minhas palavras.
- E nós teremos o grande orgulho em dizer que você foi nossa tia.
- E eu mais ainda por saber que estarei ajudando.
- Tia, você tem medo de alma do outro mundo?
- Já tive, quando era criança, vivíamos ao lado de um cemitério e eu tinha mediunidade.
- Mediunidade? O que é isso? – perguntamos assustados.
- Eu via pessoas que haviam morrido.
- Cruzes! É melhor mudarmos este assunto.
- Toda criança tem este poder, não precisam temer, lhes explicarei:




















Capítulo sete

Mediunidade Infantil


Numa noite me levantei pra ir ao banheiro, voltando para o quarto havia uma mulher negra sentada na beira de minha cama.
Apavorei-me e fiquei sem voz para gritar, fui ao quarto de meus pais, falei com minha mãe, porém ela estava cansada de tanto trabalhar e disse-me: - Vá dormir Regina. – eu obedeci e voltei, a mulher continuava sentada com o olhar fixo para o nada. Rezei um Pai Nosso e pedi que aquela visitante fosse encaminhada à luz. Abri os olhos e felizmente havia desaparecido o fantasma.
No dia seguinte mamãe me perguntou o que havia acontecido, eu lhe expliquei e ela me disse que havia sido um pesadelo.
- Mas a vovó acredita em espíritos. – dissemos –
- Hoje, naquela época ela não tinha tempo para nada, seria um tema que renderia uma conversa prolongada, talvez por isso para ela fosse melhor se fazer de desentendida.
- Mas tia, você acredita em espíritos, nós também, mas e as crianças que são de outra religião?
- A fé independe de religião, se tem uma visão, fale com Deus, reze, fale com seu anjo de guarda. Não existe este Deus que te castiga ou que te condene, ele é pura luz e bondade. Nós próprios é que nos condenamos, por isso estamos de passagem e a cada encarnação voltamos mais evoluídos.  








Capítulo oito

O Adolescente e a vida Sexual


Minha prima estava com 17 anos de idade e namorava um rapaz chamado Júlio, dois anos mais velho que ela. Tia Regina chegou ao apartamento onde moravam meus tios, ao entrar na sala, deparou com os dois pelados no sofá. Ela fechou a porta pela qual havia entrado e disse em voz alta do lado de fora:
_ Vou tocar a campainha, sou eu: Tia Regina.
Ela deu um tempo para que o casal se vestisse e tocou a campainha. Roberta abriu a porta com cara de poucos amigos e Julio com má vontade dirigiu-se a tia Regina e disse:
_ Desculpe tia, foi mau.
_ Calma, vamos conversar – disse tia Regina.
_ Deixemos para outra hora, estou atrasado, tenho que ir à universidade.

Ele estudava medicina e tia Regina, ironicamente disse:
_ Você estuda muito, penso que interrompi uma aula de anatomia. Faz bem em estudar, porém quero sentar-me com vocês e orientá-los.

Julio desconcertado saiu rapidamente com um sorriso amarelo, Roberta sentou-se num sofá e disse:
_ Pronto, vai me dar um sermão, contar a minha mãe ou marcar uma reunião com a família?
_ Nem uma coisa, nem outra. Desde quando sou um padre para fazer um sermão ou uma fofoqueira que fala aleatoriamente sobre a vida alheia?
_ Para tudo existe uma primeira vez, sei muito bem que não é perfeita, pessoas boazinhas como você um dia botam as mangas de fora. Passa pra todo o mundo que é uma santa, evoluída, mas tenho certeza que tem seus preconceitos. Sou adulta e dona do meu nariz. Ta bem, não sou mais virgem, tomo anticoncepcional e não quero engravidar-me cedo assim como fez minha mãe. Antes era diferente, o mundo mudou, você sabia? Nós mulheres já não vivemos mais de sonhos a espera do príncipe encantado, a vida evoluiu, já não temos mais fantasias, vivemos num mundo real, hoje...
_ Posso falar? – interrompeu tia Regina – Você está mesclando as águas. Entendo perfeitamente sua reação, invadi um momento de sua privacidade, mas assim como fui eu, poderia ter sido seu pai, sua mãe, sua avó ou sua irmã. Pense bem, não temos o direito de impor nossas atitudes, principalmente se vivemos debaixo do mesmo teto e dependemos dos pais para nos manter financeiramente. Você não é obrigada a pensar como nós, o que é obvio, mas tem o dever de respeitar. Seria errado se entrássemos em sua casa sem avisar, mas esta casa é de seus pais.
_ Perdão tia, foi mau.
_ Não tenho que lhe perdoar minha princesa, você apenas não se preocupou com as conseqüências.
_ Ainda bem que foi você, se fosse meu pai! Nossa! Nem pensar, ele se acha o todo poderoso, o dono da verdade.
_ É porque ele lhe ama e como a maioria pensa que pelo fato de ser adulto tem sempre razão. Nós os mais velhos, não poderíamos exigir que os jovens pensassem como nós, não somos perfeitos.
_ Seria tão bom que meu pai também pensasse assim, será que ele nunca entenderá que eu cresci?
_ Para os pais os filhos jamais crescem, são como seus eternos pintinhos, alguns são como Simão, que pensam saber de tudo caindo nas garras do mundo, pensando porque jacaré não é peixe e nada e porque um pintinho é uma ave que não voa.
_ Pobre do Dimas! Ele obteve as respostas da mãe?
_ Veja – insistiu tia Regina – onde quero chegar, as mães protegem, mas não sabem a resposta correta. Só o tempo às conhece! A vida é uma encruzilhada, cabe ao nosso instinto saber qual o caminho seguir, o qual chega na hora exata. Porque para cada coisa tem o seu tempo. E sabe que nosso corpo é quem nos reflete este momento?
_ Não tia, agora você viajou na maionese!
_ Sabe quando uma criança já está preparada para aprender a ler e escrever?
_ Aos cinco, seis anos, depende. Você que sabe tudo, então me explique?
_ Quando a criança consegue passar um dos braços sobre a cabeça e tocar sua orelha com a ponta dos dedos. – explicou tia Regina-
_ E como sabe disso?
_ Uma amiga me contou e eu comecei a observar.
_ Se o corpo nos mostra a hora, então já estamos prontas para ser mãe logo que vem nossa menstruação?
_ Eu entendo que do ponto de vista biológico sim. No entanto nosso organismo ainda necessita de um período de maturidade para o desenvolvimento adequado dos órgãos. Por exemplo: depois que nascemos para aprendemos a caminhar, este processo de aprendizado leva uns dois anos; assim como para aprendermos a falar é preciso mais dois anos.
_ Não entendi.
_ Quero dizer que não nascemos aptos para desempenharmos as tarefas que a vida nos impõe. Quando chega a primeira menstruação?
_ Aos doze, treze anos – respondeu Roberta espontaneamente.
_Veja, está afirmando minha teoria, o que passa quando temos filhos na adolescência: Uma grande maioria não tem a maturidade necessária para exercer adequadamente a maternidade.  Tudo tem seu tempo e são tão prazerosas, as fantasias, o amor e os sonhos!
_ E sonhar é contigo mesma.
_ O que esta acontecendo hoje em dia é um excesso de realidade, as crianças não crêem mais em Papai Noel, na cegonha, no coelhinho da Páscoa, todos estes sonhos foram roubados por uma série de fatores; podemos destacar dentre eles a evolução tecnológica e o consumismo gerado pelo sistema capitalista. Em minha época se conservava a virgindade e quando se transava antes do casamento, os pais falavam: Minha filha foi desonrada.
_ E você pensa assim?
_Claro que não, se himem fosse honra nunca se romperia. O que quero passar para vocês adolescentes é o valor de uma relação sexual, sexo não é uma necessidade biológica, se assim fosse somente transaríamos no cio como os animais. Temos que saber a importância deste ato, com quem estamos fazendo e por que. Transar é uma explosão de amor em sua máxima plenitude. Quantas mulheres fazem amor sem atingir o orgasmo? Temos que estar preparadas e sabermos a importância de fazer amor.

_ Como foi sua primeira vez tia?
_ Eu tinha a sua idade e namorava um rapaz sete anos mais velho que eu, quando nos encontrávamos era maravilhoso, sentia que ia explodir de prazer, quando nos beijávamos era uma sensação mágica!
Era muito gostoso, eu sonhava na noite de núpcias.
Porém ele comprou um carro e numa tarde fomos ao cinema, pela primeira vez depois de três anos de namoro, tivemos o consentimento de sairmos sozinhos.
_ Vocês nunca saiam a sós?
_ Imagine, estávamos no inicio dos anos 70, os casais não podiam sair sem que tivessem acompanhados, ainda que fosse por uma criança impunha respeito.
_ E servia pra alguma coisa?
_ De certa forma dificultava, se naquela noite estivéssemos acompanhados não teria passado esta terrível experiência. Fomos ao cinema e na saída ele pegou o caminho da Barra da tijuca, onde existiam os Motéis, lhe perguntei por que fazia aquele caminho e ele me disse: - tranquila, vamos assistir uma corrida de submarinos.
_ Mas tia, eu não posso acreditar que você caiu nessa.
_ Hoje eu sei meu anjo, mas nossa geração era pura, eu acreditei e fui. Ele estacionou o auto na beira da praia e aí imaginas!
_ Imagino! Mas me conte com detalhes:
_ Eu estava incendiando ele me beijava a todo tempo e controlava minhas mãos, até que consegui falar e murmurei:
_ Estou com medo. –e ele me consolou dizendo: - Vamos a um lugar mais seguro.
Assim que fomos a um Motel, ao chegar, todo aquele ambiente sinistro, sabendo que todos estavam ali com um único propósito, já não era um sonho, toda minha excitação transformara-se em preocupação e num grande medo de engravidar. – Ele continuava me acalmando, até que senti ser penetrada, foi uma dor terrível, ardia e assim se foi minha virgindade. Ele gritava comigo quando comecei a chorar não de dor material e sim a dor de sentir todas minhas fantasias desfeitas, principalmente o amor e a confiança que eu depositava nele. Fomos para casa, sem uma palavra sequer e terminamos o namoro.
_ Que horrível! – E não tentaram outra vez? Ele aceitou tranquilamente? E se estivesse grávida?
_ Não, nada mais tinha a fazer a não ser esperar minha menstruação que felizmente veio dias depois, embora sendo mais velho que eu, ele não tinha maturidade suficiente.
_ O que foi que alegaste a ele?
_ Que eu não estava preparada.
_ E ele aceitou assim, numa boa?
_Não só aceitou como deu a entender que somente se casaria com uma menina virgem.
_ Que maldito! – exclamou Roberta –
_ Este era o conceito da maioria dos homens, até pouco tempo atrás, falo do inicio da década de 80, sabe que ainda fazia parte da separação consensual uma clausula que dava direito ao homem de anular o casamento quando constasse na noite de núpcias que a mulher não era mais virgem!
_ Cruzes que atraso!  – Mas tia e depois? –
_Bem, depois tinha meus namoricos e fingia ser virgem.
_ Está se reservando para Juan Carlos?
_ Este é o meu sonho, casar-me apaixonada, ser amada, admirada e cúmplice da felicidade. Creio tanto nesse sonho que será realizado, não importa quando.
_ Você quer casar, com cerimônia e tudo mais?
_ Claro que sim e com minha alma gêmea.
_ Você acredita em almas gêmeas?
_ Acredito é claro!
_ Tia, você me perdoa pela forma grosseira como te tratei? Não sei o que me deu jamais me passou pela cabeça as coisas que te disse, você é a pessoa mais maravilhosa deste mundo.
_ Na verdade me senti ofendida sim, mas isso somente acontece com as pessoas que amamos, se fosse uma pessoa indiferente para mim, que se dane! Mas entendi que sua atitude foi um mecanismo de defesa ao ser surpreendida num momento de intimidade.  E quando eu disse que queria conversar, não foi com o intuito de reprovar, mais sim com a intenção de orientá-los, para que tomem determinadas precauções, como por exemplo:
 O risco de uma relação sexual não é somente uma gravidez indesejada. Existem as enfermidades venéreas sexualmente transmissíveis, tais como: gonorréia, sífilis, condiloma, hepatite B e finalmente a doença do século a AIDS, etc. E todas estas doenças não se previnem apenas com o uso do anticoncepcional, o qual, além de conter em sua fórmula uma forte dose de hormônios que acabam sobrecarregando o organismo.
Sem falar na falta de seriedade do controle de qualidade não só deste medicamento, assim como de muitos outros, que em diversos casos, são produzidos de pura farinha não surtindo nenhum efeito.
Não existe grupo de risco, pobres daqueles que pensam que pelo fato de ter apenas uma parceira, está livre de doenças.
_ É verdade, me lembro da Alicinha, minha amiga da escola, que namorou apenas dois meninos e justamente o primeiro tinha AIDS e ela morreu aos dezessete anos de idade.
- Exatamente, uma menina que não tinha vícios, tranqüila, que nunca fez transfusão de sangue, que supostamente não fazia parte do grupo de risco, morreu em plena adolescência diagnosticada por seu pediatra. Se a enfermidade não tivesse se manifestado, quem poderia imaginar que ela seria soro positivo?
_ Ninguém, ela muito menos, como suspeitar que já estivesse condenada a morte? Mas fique tranquila, que eu só transo de camisinha. – disse Roberta -
_ E, por favor, não deixe de levá-la na carteira, nada de vergonha e muito menos de acreditar no velho ditado de que o uso da camisinha numa relação sexual seria o mesmo que chupar bala com papel, isso é pura ignorância e inconseqüência. E agora basta de papo e vamos arrumar seu quarto!

 








 Capítulo nove

Ordem e Progresso

Minha prima tentou por varias vezes adiar a arrumação de seu quarto. Lembro-me de que Roberta nunca o havia arrumado até este dia, e perguntou pela centésima vez.
_ Arrumar o quarto agora tia?
_ Sim, porque não?Ontem fiquei apavorada quando entrei naquele mafuá, era pura bagunça!
_ É uma bagunça organizada. – argumentou Roberta -
_ Desde quando bagunça é organizada? O nome já diz tudo: BA GUN ÇA.
_ Eu me entendo bem com ela. – insistiu Roberta.
_ Meu anjo, a limpeza e a organização da nossa casa refletem em nossa vida.
_ Já vem você com suas bruxarias!
_ Não se trata de bruxaria. Tente organizar suas coisas, limpar, jogar ou dar de presente às coisas que não usa, tire a poeira, pois esta gera má energia.  Somos moléculas de luz, vibração, observe o peso que sentimos quando estamos sujos: transpiramos, exalamos odor desagradável. E o que nos passa depois de um bom banho? Ficamos energizados, rápidos e bem dispostos, pensamos melhor, raciocinamos mais claramente, dormimos bem e assim prosperamos.
_ Mas tia, a Gloria cuida disso! – Tentando mais uma vez fugir da árdua tarefa, transferindo-a para Gloria (a arrumadeira)
_ Pobre Gloria, é responsável por todo o serviço da casa e em relação à organização de seu quarto, o máximo que consegue fazer é guardar suas roupas. Experimente você mesma se ocupar dessa tarefa e depois me conte!
_ Tentarei, mas preciso de sua ajuda.
_ É pra ontem. – disse tia Regina já na porta do quarto.
As duas passaram três dias arrumando a desordem. Roberta espantou-se ao ver tanta coisa guardada, ou melhor, dizendo: amontoadas.

No final daquele mês, casualmente Roberta ganhou um computador do meu tio, que lhe disse: Há tempos vinha pensando em comprá-lo, porém quando via a desordem de seu quarto pensava: - Vou jogar dinheiro fora, se Roberta não liga para arrumação de suas coisas, como cuidará de um computador? – Porém graças ao apoio de tia Regina você me convenceu de que tem capacidade.

Roberta ligou na mesma hora dando a noticia. E minha tia disse:

_ Vê? A ordem trás o progresso! Estou orgulhosa de você meu anjo!

Passei a observar o quanto tia Regina era organizada, seu apartamento era muito pequeno, sala e quarto, porém havia uma dependência de empregada que ela transformou num escritório. A cada ano ela mesma pintava, mudava a decoração, as cortinas, os almofadões e adorava quando elogiavam sua casa, dizia que nosso lar é um Templo.

Contou-me que quando mais nova, vivia num conjugado, porém era o que conseguia pagar com o salário que recebia, estava namorando um tipo rico. Este, um dia a levou para conhecer seus pais, que moravam num senhor apartamento de 800 metros quadrados, no décimo andar, na Av.Delfin Moreira. Tia Regina achou um exagero, um espaço tamanho para apenas três gatos pingados morarem, bem, ela se adaptava a qualquer situação. E a cada vez que ia ao lavabo, ela dizia ao namorado:
_ Sabe que meu apartamento inteirinho cabe aqui dentro?
_ Verdade? Não acredito! Por isso que você nunca me convidou para conhecê-lo?
- Seu bobo, não é nada disso é que ainda não houve oportunidade.

Ela não podia recusar o convite e também deixar de retribuir o jantar, assim que marcaram para o próximo sábado. O apartamento era um pequeno retângulo, á direita ficava a porta de entrada, com uma saleta onde mal cabia uma mesa e quatro cadeiras, do lado esquerdo paralelo a sala havia um armário que era a cozinha embutida e ao lado um banheiro, depois desta saleta vinha o grande cômodo de 9 metros quadrados. Mesmo sendo pequeno ela fez um milagre, todos admiravam a decoração, muitas plantas e poucas cores.

No sábado estava elétrica preocupada com detalhes sobre a decoração de seu apartamento. Encontrou na lixeira do andar, um tapete de palha, - cabe perfeito sob a mesa – pensou, recolheu e executou.

Perfeito! – O tapete compôs harmoniosamente a saleta, analisando os detalhes uma coisa não a agradava: Era uma lâmpada pendurada pelo fio, justo sobre a mesa! - outra olhada e mais uma idéia! – Lembrou-se que havia no seu guarda roupa uma antiga bolsa de palha a qual fazia muito tempo não a usava, que em poucos minutos transformou-se numa luminária.
Ao chegar, seu namorado ficou encantado e surpreendido, como poderia uma pessoa morar num apartamento tão pequeno e decorado com tanto bom gosto.
E ele disse:
_ Que mundo lindo o seu Regina!
_ Obrigada, depende a que mundo se refere – disse ela sorrindo –
Porque se a referencia for meu apartamento o seu seria todo o universo e muito mais.
_ Não é do apartamento e sim de sua forma de ser, te admiro tanto!
Até que saiu um beijo, coisa preferida de tia Regina. Estavam no sofá do grande Três X Três, quando sentiram um cheiro de coisa queimando.

Eu perguntei, já imaginando a resposta:

_ O que aconteceu? Não Me diga que era a bolsa incendiando!
_ Era, foi uma vergonha e tanto, mas que me fez aprender uma coisa, não se vive um sonho sem antes dar corpo, me entendeu?
_ Assim como a historia do velho rabugento?
_ Correto, ser ambicioso faz parte da nossa vida, mas temos que primeiro concretizar as bases. Eu era muito jovem, tive uma idéia e a executei. Poderia ter dado certo se eu tivesse feito uma armação de arame e afastado a palha do calor da lâmpada.
_ Mas você só queria fazer uma presença.
_ E que presença! Mas sabe de uma coisa? Morro de rir quando me lembro desse episódio.


Sua vida, a pesar desses eventos engraçados.
Era próspera, ela sempre vencia as batalhas e quando alguma dificuldade surgia em seu caminho e planos ela dizia:
_ Faz parte do meu show e o show tem que continuar!






































Capítulo dez

Câncer de Mama


Perto de sua aposentadoria, ela estava pensativa, a diretoria da empresa onde trabalhava queria que ela continuasse trabalhando. Um dia, Carlinhos foi visitá-la e percebeu que alguma coisa se passava, então lhe disse:
_ Tia, embora esteja tentando ser uma fortaleza, sinto que alguma coisa vai mal, eu sei que sou jovem, tenho somente 14 anos, mas posso tentar te ajudar.

Seus olhos encheram de lágrimas e ela lhe disse:

_ Como sou orgulhosa de você meu anjo, ser jovem não significa imaturidade, veja, você me radiografou, estou sim com um drama, preciso desabafar com alguém, graças a Deus que vieste me ver.

Sua autoestima foi nas nuvens. Tia Regina, aquela grande pequena mulher de 50 anos, precisando aconselhar-se com ele! Aquela mulher que sempre encontrava uma solução, que nos amparava com suas palavras, que era nosso refúgio, estava ali na frente dele, recostada em seu colo e ele acariciando seus cabelos suaves e perfumados. Era como se fosse uma adolescente precisando se desabafar, teve vontade de chorar com tamanha emoção.
_ Fale tia, tentarei fazer como você, saber ouvir. _ disse Carlinhos, se sentindo um Homem -
_ E começou muito bem, saber ouvir, sabe a diferença entre ouvir e escutar?
_ Não. – ele respondeu -
_ Ouvir é atender e escutar é entender.
_ Ouvirei e escutarei.
_ Vou direto ao assunto, descobri um nódulo no meu seio, fui ao medico, ele fez a biopse e o resultado foi positivo, estou com um câncer de mama, não tenho medo de morrer, você sabe disso, mas ainda tenho tantos sonhos por realizar. Sei que houve muitos avanços na medicina e em outros campos, na minha época sequer falavam em câncer, diziam aquela doença, muita coisa mudou nesse meio século de vida, venho da era do rádio, dos discos de vinil...
_ Discos de vinil?
_ Vieram em 1948 substituindo os anteriores chamados de goma-laca que eram de 78 rotações por minuto. Os televisores eram enormes de forma arredondada e imagem preta e branca, havia uns plásticos com três listras coloridas que colocávamos para iludir uma imagem a cor.  Os telefones eram pretos e grandes que às vezes passávamos um dia para conseguirmos completar uma ligação, até chegar o sistema digital, os celulares e finalmente os computadores, sabia que o chamavam de Cérebro Eletrônico?
_ Por quê?
_ Coisa dos Norte Americano quando em 1943 criaram o ENIAC assim o chamavam, era mantido em uma sala refrigerada e só foi patenteado depois da II guerra mundial em 1947, busque na internet, lá encontrará todas essas informações.
_ Que barato! Tia, eu nunca me liguei nisso.
_ E sabe de uma coisa? Lembrando e vivendo essa evolução humana e tecnológica que me sinto preparada para esta cirurgia.
- Isso é maravilhoso. Eu sabia que chegaria a essa conclusão, tirou um peso enorme de cima de mim, estava com medo de não poder te ajudar.
_ Como não me ajudaria! Se não fosse por você eu estaria chorando.
_ Eu não falei nada.
_ Ouviu e escutou, esta é a melhor ajuda, você soube me analisar, apesar de sua pouca idade, demonstrou possuir uma sensibilidade que supera a de muitos adultos. Esta atitude de sua parte foi muito nobre e como sou conhecida por maluca, te digo: O show tem que continuar!
_ Tia eu te adoro!
_ E você é a razão do meu viver!

Abraçaram-se chorando e pediram aos mestres superiores que lhe dessem forças e coragem para superar aquele mau momento.

Ela fez a cirurgia e não foi necessário retirar a mama, pois tia Regina fazia exames frequentemente. Todos souberam depois, já quando estava tudo resolvido. Isso porque tia Regina tinha suas superstições, ela dizia que nunca se deveria contar com o ovo dentro da galinha. Assim que depois de todo acompanhamento, colocou uma prótese, tão logo que foi liberada. E orgulhosa nos dizia:
_ Na vida nada acontece por acaso, eu sempre quis ter seios maiores e consegui!







































Capítulo onze

O Adolescente e as Drogas



Quando finalmente ela se aposentou, seus amigos a homenagearam com uma grande festa.
Viajou por 40 dias e como dizia, começou a dar bases a seus sonhos, comprou uma casa na região dos lagos e lá escreveu seu primeiro livro para adolescentes, foi um sucesso, minha avó então lhe pediu que escrevesse sobre sua vida e lógico que ela o fez.

Nessa casa tínhamos espaço para muitas pessoas e claro que nós, seus seis sobrinhos éramos assíduos, nos finais de semana, férias, feriados, enfim, sempre.

Num dia de verão, tia Regina chegou a casa com um ar aborrecido, foi direto para seu quarto e somente saiu depois de algumas horas, percebi que seus olhos estavam avermelhados. Aproximei-me dela e disse.
_ Necessita de uma analise? É grátis.
_ Meu anjo da guarda –respondeu soltando sua gostosa gargalhada-
Analista, como poder ocultar de você algum problema! Vamos até a varanda, tenho um probleminha sim.
_ Seus olhos estão dizendo tudo.
E ela como sempre, ia direto ao assunto e contou:
_ Sabe, peguei um táxi para o centro, quando fui pagar notei que havia sumido dinheiro da minha bolsa, porém ontem fui ao caixa eletrônico.
Você me conhece, nunca me deixei dominar pelo dinheiro, muito menos contar quanto tenho o que me preocupa é que foi um furto dentro de casa, quem fez e por quê?
_ Isso é grave tia, muito grave.
_ Meu Deus, a única coisa que passa pela minha cabeça é droga!
_ Ai tia, isso me arrepia! Por que droga?
_ Infelizmente quando se entra neste mundo a pessoa se modifica em seu meio familiar, se torna mais dócil, vulnerável, suas ações se transformam numa tentativa de esconder esse caminho sem volta. Mais vocês são criados com diálogos francos, sinceros, livremente, somos uma família onde existe harmonia e amor. A única pessoa estranha é o Roberto, amigo do Claudinho, ele é introvertido, não te olha nos olhos, se nota que em sua família não há união.
_ Será?
_ Não somos ninguém para julgar, muito menos acusar sem provas. Vamos nos reunir depois do jantar, sei que teremos uma agradável surpresa. Tenho um bom pressentimento.
_ Ah minha tia bruxa!

À noite nos reunimos e tia Regina disse:

_ O motivo desta reunião é muito sério: Sumiu dinheiro da minha bolsa, gostaria de saber somente a verdade, seja qual for. A mentira tem pernas curtas e sempre é descoberta. A verdade às vezes parece difícil, pois achamos que nos trará sérios problemas, porém é melhor sofrer momentaneamente a ter que enfrentar o desmoronamento de uma mentira. Na vida não existe erro e sim fracasso. Engana-se aquele que pensa que a culpa de nossos fracassos é sempre de outra pessoa, dos pais, dos amigos, de A ou de B. Se engana aquele que foge pensando que vai escapar de suas responsabilidades.
A primeira desconfiança que tive foi que algum de vocês está envolvido com drogas. E a droga nunca foi válvula de escape de problemas, nunca foi e nunca será uma forma de levar a vida adiante.
 Quem já viu uma pessoa que se droga ser feliz? Ou alguém feliz que se drogue? Quem já viu um traficante drogar-se?
É com imenso pesar que atravessamos hoje momentos de grande sofrimento quando todo o dia presencia morte de crianças causada por overdose, geralmente de classe média alta.
Se algum de vocês estiver passando por isso não tenha vergonha de pedir ajuda.

O silencio era aterrorizante, apenas se ouvia as ondas do mar batendo na areia, silencio o qual foi interrompido por Claudinho com a voz embargada:
_ Perdoa tia, eu peguei o dinheiro, mas juro que não foi pra comprar droga, a verdade é que eu e Roberto conhecemos umas meninas e as convidamos para o cinema, eu ia te pedir, mas você não estava depois eu ia te contar e me esqueci.
_ Se esqueceu de contar ou sentiu vergonha?
_ Em realidade tive vergonha, pensava em pedir ao papai e repor o dinheiro.
_ Mas meu anjo, vergonha de mim?
_ Não sei por que, foi instintivo. Por quê?
_ Medo de ser advertido. Quando somos crianças pensamos e julgamos os mais velhos como autoritários, donos da verdade, isso é normal, por mais que tentemos aparentar que somos amigos, esse é um tabu que só mais tarde é que compreendemos que nossos pais falam, recriminam para nosso bem e só entendemos quando passamos a mesma situação com nossos filhos, atenção Roberta!
 Roberta estava grávida da sua primeira filha.

_ Bem assunto encerrado, eu sabia que não era o pior, a cada falta encerra um aprendizado. Quase tive um piripaque ao escutar o meu bebe dizendo: - Tia fui eu! O chão fugiu dos meus pés! Lembrei-me daquele pestinha chegando a meu apartamento querendo tomar banho de banheira e eu exausta inventava que as toalhas estavam de molho, ele insistia, até que tinha uma furada e fiz um escândalo dizendo que entre elas havia uma que mordia.
- E ele acreditava?
- Não só acreditava como morria de medo. Era um descanso.
- Bem já haviam comentado comigo que você não era normal. – Disse Roberto à tia Regina que chorava de tanto rir e em coro, todos nos gritamos:
- Tia Regina é normal?
- Normalíssima! – disse ela sorrindo – E por falar em normal – aproveitando que Roberto esta aqui e já faz parte da família, nada mais justo que receba parte de minha herança.
- Herança? Como assim?
- Você não sabia que sou herdeira do mundo?
- Que doideira é esta?
- Quando nasceu minha primeira sobrinha...
- Eu. - levantou-se Roberta e completou a narrativa: Sabem o que ganhei dela? Pasmem a Lagoa Rodrigo de Freitas. Eu acreditava mesmo que era a dona, todo o domingo ia cuidá-la, andar de pedalinho, era um barato! Quando eu estava com sete anos nasceu Débora, agora vem a rivalidade.
- Rivalidade não Roberta – disse Débora – Lhes contarei: Eu adorava passar os finais de semana na casa de quem?
E novamente em couro dissemos:
- Da louca de tia Regina!
- Claro, acho que puxei muito a ela e um dia eu lhe disse: Que praia linda! Referindo-me a toda a praia de Copacabana ao Leme e ela sem pestanejar me doou todo aquele patrimônio, dizendo:
- É sua herança da titia. Gente eu amei a idéia e um dia passando pela lagoa eu ri baixinho e comentei com tia Regina: Olha o tamanhinho da herança da Bebeta!
- Carlinhos ficou com a Região dos Lagos, Claudinho todos os parques de Copacabana. E doze anos depois veio Sara e como estavam morando fora do Rio de Janeiro, herdou todas as cascatas e cristais do cerrado de Goiás.

- Eu então oficializei minha herança, Foz do Iguaçu. – Foi uma baderna geral – e tia Regina disse: Nada de brigas, somos herdeiros do mundo, temos que cuidá-lo com amor.

Naquela noite mais que especial e uma das ultimas reunidos, ela criou acho que um dos melhores contos para nossas vidas, o qual passou a ser meu livro de cabeceira.












 Capítulo onze

A lenda da vida




















Num campo afastado do barulho de carros e burburinhos da cidade, um casal de crianças, Maria e João, brincavam de pique esconde. Estavam suadas, de tanto que corriam embora fosse uma fresca tarde de primavera com sua temperatura amena, uma suave brisa tocava seus rostos vermelhos de calor.

De repente se assustaram quando uma chuva de sementes coloridos e tamanhos diversos caía de uma solitária árvore frondosa, localizada no centro do gramado onde brincavam.

- Olhe! Exclamou João! Que apontava espantado, com uma das mãos e a outra segurava a cabeça, como que saudando aquele fenômeno, enquanto que Maria tapando os olhos com as duas mãos gritava:
- Isso é coisa do demônio, vamos correr daqui.
- Maria observe, são lindas e caem da árvore e sendo da arvore é da natureza e natureza é Deus!
João agora com os braços estendidos pra cima girava alegremente debaixo da chuva encantada.
- Tens razão João. Disse a arvore. - causando espanto nas crianças -
- Não se assustem meu nome é VIDA e estas são minhas sementes, colham-nas e semeiem-nas.
Ao completarem 45 anos de idade, voltem a este mesmo local, que aqui estarei a esperá-los e somente nesta ocasião é que saberão seu significado.
As crianças colheram todas as sementes e no caminho a suas casas fizeram um pacto:
- Maria este será um segredo nosso. – disse João.
- Por quê? Quero ver a cara de todos quando souberem.
- Você acha que vão acreditar? Internar-nos-ão num hospício ou vão nos exorcizar.
- Mas temos a prova, olhe! E ao mostrar as sementes Maria gritou:
- Olhe são todas iguais são comuns!
- Está vendo? Este é um sinal de que não temos eu contar para ninguém.
E para frustração de Maria, foi o que fizeram.
Maria era uma menina introvertida, não tinha amigos, em sua cabecinha de apenas nove anos, guardava um grande complexo de inferioridade, filha única e seus pais eram grandes empresários, prósperos, sem problemas financeiros.
Ela estudava no melhor colégio de uma pequena cidade, todos os anos viajavam pelo mundo e ao voltar de férias suas colegas de turma, perguntavam como eram os países, seus costumes, as paisagens...
Ela respondia:
- Isso não me interessa pra nada, não me misturo, prefiro ficar no melhor hotel e aproveitar das regalias.
Vivia no seu mundinho vazio e solitário, por isso não tinha amigos.


Nesta noite ao chegar a casa João soube que seus pais iriam morar no norte, pois a fabrica na qual seu pai trabalhava como vigia, fora transferida para Manaus.
Correu até a casa de Maria e lhe deu a noticia que caiu sobre ela como uma punhalada em seu coração, não pode conter suas lágrimas e abraçou ao amigo perguntando:
- Com quem vou conversar agora?
- Com suas amigas do colégio.
- Não tenho amiga, elas fogem quando tento me aproximar, sou tratada de burguesinha.
- Tem a seus pais, converse com eles!
- Até parece, eles estão sempre trabalhando, nunca estão em casa, me ignoram.
- Não é assim, eles trabalham muito, te amam e não querem que te falte nada.
- Pois preferia que me faltasse tudo, menos a atenção, coisa que não tenho.
- Você está sendo dura.
- É a verdade. Você se lembra quando tive uma virose? O medico veio aqui em casa, eles pagaram uma enfermeira pra cuidar-me e sequer passaram uma horinha comigo. Vez ou outra que minha mãe da porta me mandava um beijinho barulhento.
- Experimente se abrir com eles, vai ver não percebem que isso te faz falta ou foram criados assim e como pode dar a você uma coisa que nunca conheceram?

No final daquele mês, João se mudara com a família e ao se despedir de Maria, combinaram de sempre se corresponderem.
Porém, com a revolta da separação de seu único amigo, ela passou a ignorá-lo e rasgava todas as cartas enviadas por ele, sem sequer abri-las.

Passados cinco anos, o pai de João fora acometido por uma doença grave causando seu afastamento da fabrica onde trabalhava.

João já com 14 anos, acompanhava-o diariamente ao hospital público e ele mesmo é quem tratava de todas as burocracias impostas pelo sistema de saúde.

Foi cativando o carinho dos funcionários que se admiravam, ver aquele adolescente estatura mediana, olhos expressivos, tentando amenizar o sofrimento, não só de seu pai, quanto aos demais doentes.
Sempre com compreensão, resignação e muito amor e graças a seu esforço conseguiu a internação de seu pai.

Na véspera da morte do seu pai, com muita dificuldade conseguiu manter um pequeno diálogo com o filho:

- Cheguei ao fim, querido filho, sinto não ter conseguido deixar você e sua mãe com estabilidade financeira. O que será de vocês? Só deixarei lembranças desses dias tão sofridos e duros... –um triste pranto o dominou e João o abraçou forte dizendo:
- Pai, o dinheiro é importante sim, porém se vivemos honestamente, um dia chega a nossas mãos. Porém o amor, os diálogos sinceros, nossa amizade, são a melhor herança que nos deixará.

Seu pai estava muito emocionado e feliz agradecia a Deus em ter um filho tão especial.


João depois da morte de seu pai arrumou um emprego durante o dia e estudava a noite, tinha um ideal, ser cirurgião, não por orgulho e sim com o objetivo de amenizar o sofrimento daqueles necessitados assim como seu pai e tantas outras pessoas.

Sua mãe era empregada domestica e fazia questão de voltar para casa todos os dias, para estar com seu filho amado. João chegava a casa normalmente lá pelas 11h30min da noite, moravam numa pequena casa de apenas três cômodos que representava um castelo para eles, já que era própria.

João estava com 18 anos e prestara concurso para a faculdade de Medicina e numa tarde de domingo deitado na rede de seu quintal observava suas sementes mágicas, plantadas logo que foram morar ali, estava cada dia maior, forte, perfumado e harmonioso, notara que algumas não haviam vingado, porém Vida se encarregaria de explicar ou quem sabe um dia se encontraria com Maria.
Sua mãe carinhosamente levou um apetitoso lanche, sentou-se a seu lado e perguntou:

- Meu filho, não se sente revoltado com esta vida tão dura? Ter que trabalhar tão cedo enquanto seus amigos apenas estudam?
- Claro que não minha mãe, eu sou um bom aluno na escola da vida, entendo suas lições. A senhora sabe da historia do rei e seu conselheiro?
- Não filho, conte para sua velha mãe!

- Um dia, o rei e seu conselheiro saíram para caçar, como de habito. O rei errou o tiro e perdeu seu dedo indicador, sendo socorrido por seu velho e leal conselheiro que lhe dizia:
 - Não se desespere meu rei, foi apenas um dedo, Deus sabe o que faz!
- Deus sabe o que faz? Tirar o dedo de um rei, você acha certo?
- Não importa o que eu ache meu rei e sim que Deus sabe o que faz!
- Pois ficarás confinado na masmorra até o fim de seus dias!

Disse o rei enfurecido enquanto o conselheiro de cabeça erguida a caminho da clausura repetia: Deus sabe o que faz!
 O rei revoltado, olhando enojado com a complacência do conselheiro, lhe perguntou:
- Ficará o resto de sua vida confinado e o que me diz?
- Deus sabe o que faz!
O rei cuspiu em sua cara e ordenou que o trancasse na masmorra. Assim que o conselheiro foi confinado.
Anos depois o rei resolveu caçar sozinho, sem seu dedo indicador e sem seu conselheiro. E ao chegar à floresta foi atacado por uma tribo de canibais e gritou:
- Sou rei.
Os canibais nada entendiam, preparavam um enorme caldeirão, despiram-no e vira que lhe faltava um dedo. E o chefe da tribo gritou:
Soltem este infeliz! Falta-lhe um dedo, deve ser leproso!
O rei montou em seu cavalo e saiu galopando sem olhar pra trás.
Chegando ao castelo, ainda apavorado, ordenou que trouxessem o conselheiro. Contou-lhe sobre o incidente e perguntou:
- Como me explica este acontecido, honestamente? Sei que me odeias, afinal sou o responsável por seu confinamento por todos estes anos, Deus sabe mesmo o que faz?
- Claro meu rei! E não tenho porque ter ódio, se eu não estivesse confinado, teria ido com vossa majestade a cassar, a tribo nos encontraria e em meu corpo não falta nada, logo, eu seria devorado pelos canibais. Meu rei passou por um teste de que Deus sabe o que faz!

A mãe de João o olhava e pensava o quanto era nobre seu pequeno filho.

João a cada dia se superava, passara no vestibular e cursava a sonhada Universidade de Medicina, sempre o melhor aluno, querido por todos, amava a vida, a natureza, agradecia todos os dias a visão que tivera com VIDA e pensava no quanto teria para contar!

Os anos se passaram João já estava com 45 anos de idade, um grande cirurgião, casado, vivia numa bonita casa e um quintal plantado com as sementes mágicas.

Dirigia o hospital, o mesmo onde morrera seu pai e já não o competia operar, porém ele amigavelmente fazia questão de participar e muitas vezes orientar em casos graves.
Estava numa tarde olhando através da janela, nos dias difíceis que passara em sua infância, o carinho dedicado por sua mãe que já não mais necessitava trabalhar e lembrou que chegara o momento do encontro com VIDA. E Maria? Onde estaria? Porque jamais respondera suas cartas?
Seus pensamentos foram interrompidos ao ser chamado para uma emergência.
- Com licença Dr.João, precisam de sua ajuda no centro cirúrgico.

Rumou ao centro cirúrgico, fez sua assepsia e enquanto a instrumentadora colocava suas luvas ele perguntou a equipe.
- Do que se trata?
- Ela sofreu um grave acidente bateu com o carro contra uma muralha, está totalmente drogada.
- Santo Deus!

A cirurgia demorou cinco horas, varias costelas fraturadas que por pouco não romperam seus pulmões, foi encaminhada a UTI.

Ao chegar a casa, já amanhecendo, contou a sua mulher sobre a emergência:
- Não entendo como as pessoas se machucam tanto, porque se drogam, porque se viciam. Operei uma senhora esta madrugada, aparenta ter uns 70 anos, estava totalmente drogada.
- Ela estava sozinha?
- Sim, seu estado ainda é muito grave. Vou tomar um banho e voltar ao hospital.

Chegando ao hospital foi direto para a UTI e pediu a enfermeira o prontuário da paciente ao ler seu nome, sentiu o chão saindo de seus pés. Era Maria, totalmente acabada pelas drogas, aparentava 25 anos mais velhos. Ele suspirou e disse: Pobre amiga!

Semanas depois Maria foi transferida a uma enfermaria e já conseguia falar, João se apresentou:
- Lembra-se de mim Maria?
- Foi você quem salvou minha vida, o que quer de mim? Quer meu agradecimento? Se for isso esqueça, porque você não me salvou, prolongou meu sofrimento.
- Não diga isto!
- Quem você pensa que é? Um médico que se acha Deus? Que direito tinha de salvar minha vida? Quando joguei o carro contra aquela muralha, estava certa que ia morrer, porém tinham que me trazer pra cá! Eu te odeio!
- Acalme-se, quando te perguntei se sabia quem eu era, não me referi ao medico e sim ao João, seu amigo que anos atrás fizemos um pacto com a VIDA, lembra?
- Maldita árvore e suas sementes podres, poucas vingaram, são daninhas, rasteiras, espinhentas, venenosas e mal cheirosas, onde nascem vira um pântano, não gostam de luz são horríveis!

João olhava penalizado, pegou a mão de Maria e disse:
- Querida amiga, você se lembra que a VIDA nos convocou a nos encontrarmos com ela ao completarmos 45 anos?Porque não vamos até ela? Com certeza ela nos dará a devida explicação.
- Olhe pra mim João, estou acabada, desde nova a vida sempre me maltratou, meus pais me expulsaram de casa aos dezoito anos, quando descobriram que eu já não mais freqüentava o colégio, gastava todo dinheiro de minha mesada com drogas, roubava, no inicio as coisas de casa pra sustentar meu vício. Quando me vi na rua me prostituí vendendo meu corpo. Até que conheci um traficante, nos apaixonamos e vivemos juntos por 15 anos, até o ano passado, quando um pai desesperado ao vir seu único filho de apenas 14 anos de idade morrer de overdose, soube que o fornecedor era meu companheiro, invadiu nossa casa armado, disparou contra o peito de meu marido e restando uma bala ele atirou contra sua própria cabeça.
Este infeliz acabou com sua vida e ainda a do homem que me deu carinho e me tirou da prostituição.
Desolada virei peregrina viajando sem destino tentando esquecer esta vida miserável e injusta, deste mundo egoísta. Porém as lembranças do passado não me abandonam em meu coração aloja-se um enorme ódio de todos e pena de mim. Não sei o que fiz para sofrer tanto assim. Por que Deus me odeia tanto João?
- Deus é pura bondade querida amiga, somos nós mesmos que nos punimos, não somos os únicos sofredores, te contarei alguns fatos que presenciei neste hospital.

João narrou historias verdadeiras presenciadas por ele ao longo de sua vida, porém Maria ouvia distante mergulhada em seu sofrimento. Percebendo a indiferença, ele entendeu que não adiantariam argumentos que melhorasse sua alta estima. Afinal levara a vida por caminhos tortuosos, não foi forte o suficiente para enxergar as armadilhas do mundo, caiu num abismo, foi ao fundo do poço. Precisava de um tempo para emergir e mais que nunca de amor.
Ele acreditava que havia uma sementinha alojada em cada um de nos e que um dia, não importando a idade, sexo, cor, religião ou classe social, despertaríamos nossa consciência para a existência. Quanto a Maria, somente VIDA poderia tirar-lhe daquela profunda depressão.


... O reencontro com VIDA...


Após alguns meses João conseguiu convencer a Maria a reencontrar-se com VIDA.
Tantos anos se passaram e lá estava VIDA, mais velha, linda, irradiando luz e exalando um suave perfume.
João emocionado abraçou a Maria, esta imóvel com os olhos estatelados não retribuiu, apenas estendeu a mão para que ele a segurasse.
João ajoelhou-se aos pés de VIDA e soluçando murmurou:
- Querida VIDA perdoe meu pranto estou muito emocionado, sinto como se estivera morto e prestando conta de minha vida.

Maria com olhar de censura falou:

- Você enlouqueceu mesmo, não vê que tudo isto não passa de uma ilusão de duas crianças? Quem não percebe que esta é uma árvore velha que jamais falou, sequer percebe nossa presença e não passa de um vegetal. Francamente não sei onde eu estava com a cabeça quando aceitei vir até aqui. Vou embora.

De repente da arvore caíram pingos como se fossem lágrimas. E João comovido falou:
- Ela esta chorando! Por favor, VIDA não chore, não fique triste, Maria é revoltada e amarga, com tudo e com todos.
- Não estou triste minha criança, choro de felicidade. Feliz  por acreditarem em mim.


...O esclarecimento...

- Eu, a árvore, simboliza a vida, minhas sementes são o caminhar, a forma de conduzirmos a nossa vida dependerá do nosso caráter, sendo assim fundamental para nossa evolução. Você João só semeou as boas sementes. Quando perdeu seu pai aos 14 anos de idade, não se revoltou, colheste a semente da compreensão; ao trabalhar para sustentar sua mãe, a maturidade; quando sua mãe se lamentava ao vê-lo tão cedo trabalhar, a sabedoria, sempre com palavras e gestos de amor; ao estudar, a força; ao se formar, a garra; ao salvar vidas principalmente da Maria, colheu a mais valiosa delas, a semente do amor.
Deve ter notado que algumas não vingaram, pois esta você não as plantou e sim Maria.
Ela teve seus pais de classe media alta, nunca precisou trabalhar tudo que pedia ou sonhava recebia de seus pais. Porém nesta família não havia amor, seus pais só pensavam em enriquecer e achavam que cobri-la de presentes supria a falta de diálogos e carinho. Só que estas coisas são matérias e não fundamentais.
Vejam no que deu! Uma jovem inocente, carente de amor e compreensão, sem orientação, cai no mundo das drogas, colhe sua primeira semente: a ignorância; ao roubar, a ganância; ao sair de casa expulsa pelos pais, o ódio; ao se prostituir, o rancor; ao se unir a um contraventor, a inveja; ao tentar suicídio, a autopiedade; e agora ao me destratar, a vingança. Pois em sua cabeça passa que eu fui a culpada por fazê-la viver desta forma.
Não minha querida Maria, não culpe a VIDA por colher as sementes podres. Olhe dentro de seu coração e veja que existe uma sementinha secando, precisando ser regada, nunca é tarde! Cuide dela, regue-a todos os dias, horas, minutos e segundos, não viva no passado, simplesmente pense no que já passaste, limpe sua plantação daninha, elimine-a, queime-a, deixe que as boas sementes floresçam e tenha certeza de uma coisa: Nunca é tarde para recomeçar! Não tenha vergonha de encarar seus erros e sim se orgulhe em poder enxergar e corrigi-los, não tenha medo nem vergonha de amar e saber perdoar.

Maria recapitulou toda sua vida e chorou compulsivamente, levantou a cabeça e os braços para o céu e perguntou a VIDA:
- Como regar esta semente?
- Mergulhe profundo em seu interior, reflexione, perdoe aqueles que culpam por seus deslizes, converse com Deus.

Maria abraçou a João e a VIDA, saiu caminhando com passos largos e saltitantes até que encontrou uma bifurcação com dois caminhos, parou, observou que um deles era florido e alegre o outro escuro e triste parecidos com suas sementes e pensou:
- Nunca é tarde para recomeçar. – E rumou pelo caminho das flores!

Esta é a lenda da VIDA e em toda lenda sempre tem um final feliz.
Porque não tornarmos nossas vidas em lendas?












Capítulo treze


A Realização do Sonho



Eu ia completar 20 anos e tia Regina 55; nossos aniversários são no mesmo mês, no ano anterior ela havia lançado o livro prometido a minha avó o qual obteve grande êxito e na noite de meu aniversario, foi o lançamento do seu terceiro livro.
O evento foi numa pequena livraria no centro da cidade. Ela estava linda, sentada a uma mesa autografando e uma enorme fila, quando avistei um homem alto, corpo atlético, calças jeans, camisa de linho azul claro, cabelos grisalhos e encaracolados, olhos verdes, pele bronzeada e um livro nas mãos.
Corri para perto dela, eu não estava sonhando, era real! Não podia perder o mínimo detalhe, minha ansiedade era tão grande que podia escutar as batidas de meu coração. Ele se aproximou dela e disse:
-Regina Magalhães?
- Sim! – Ela respondeu, com os olhos arregalados, enquanto levantava-se lentamente arrastando a cadeira para trás, estendendo a mão para cumprimentá-lo.
 - Sou Juan Carlos, também escritor. Queria dizer-te que me encantou seu romance e o trouxe para que me autografe.
Foi o que pude entender e imaginar, pois ele falava espanhol!
- Meu Deus, você existe! Só falta o beijo!
Juan Carlos, sorrindo beijou seu rosto e a abraçou fortemente, parecia que os dois se conheciam há muitos anos.


Um mês depois se casaram. A cerimônia foi a mais linda que presenciei, mística.
Alugaram uma casa de festas, na Lagoa Rodrigo de Freitas, num grande salão e a decoração feita por tia Regina.
 O que não poderia deixar de ser. Afinal ambos eram exotéricos!
Logo na entrada havia muitas plantas, flores e cristais posicionados ao norte, representando o elemento Terra.
Ao leste, incensos e luzes, elemento Ar.
Ao oeste uma linda fonte, elemento Água.
E ao sul chamas coloridas, elemento fogo. 

No centro do salão, rodeado pelos quatros elementos, foi erguido um altar que era uma tenda branca, decorada com camélias e jasmins.
Sob este, um conjunto de lâmpadas com as sete cores primárias: vermelho, laranja, amarela, verde, azul índigo e violeta.

Eu sempre convivi com sua alegria contagiante, porém naquele dia estava muito emocionado.
Ela estava linda! Embora seus 55 anos de idade aparentasse 40! Vestia um longo de renda azul celestial, sapatos forrados com o mesmo tecido do vestido, cabelo preso com um arranjo de minúsculas pedrinhas de cristal, azul é claro!
Em suas mãos um arranjo de flores do campo!

Sara foi à dama de honra, junto com o casal de Roberta.

Entrou com passos lentos e chorava muito. Juan Carlos a esperava no altar, ao lado de minha avó. Estava todo de branco realçando sua pele bronzeada e seus olhos verdes.

A cerimônia foi mágica!O oficiante traçou um círculo em volta do altar e disse:
-“Hoje chegam juntas a este círculo mágico pedindo a benção dos Antigos para sua união. Que seja este um círculo um local de amor, honra e paz.”

E convocou aos noivos a dizerem as seguintes palavras:
-Agora não sentiremos nenhuma chuva, pois um será o abrigo do outro.
Agora não sentiremos frio, pois um será o calor do outro. E a partir de agora seremos dois corpos, porém uma só vida.



 No final estávamos todos chorando!

Outro momento mágico foi quando Juan Carlos
Pegou uma taça de vinho, tomou um gole e ofereceu a Tia Regina, depois ele envolveu a taça num lenço e quebrou com os pés.
O círculo mágico foi apagado, eles se beijaram e saíram abraçados. O noivo com sua linda voz de locutor falou:
- Peço a todos alguns minutos de atenção, serei breve, prometo isso não é um discurso.

Todos nós riamos e ele falou:

- Conheci Regina, pessoalmente, a pouco mais de um mês. Apaixonei-me por ela, quando li seu livro á um ano. Hoje a conhecendo realmente, estou mais apaixonado.
Sou o homem mais feliz do mundo, sabendo que faço parte de seus sonhos...

Tia Regina emocionada apertou minha mão, enquanto Juan Carlos continuava seu discurso e sussurrando em meu ouvido, murmurou:
- Não me belisque, porque se este for um sonho, jamais quero despertar!




















Epílogo




Quanta felicidade, eu senti, ao ver seu sonho realizado. Ela provou que se queremos muito alguma coisa, sonhe, sonhe muito, idealizando-o, planejando-o dando condições para sua realização! Porque somos todos filhos de Deus, Ele é pura luz e bondade e só deseja nosso bem.
Dizia que temos que nos amar para poder doar amor.

E o bem é a felicidade, pensar sempre positivo, viver sem ódio em nossos corações, ser ambicioso e não invejoso, ser tolerante e não passivo e submisso. Ser consciente de que colhemos o que semeamos.

Seu sonho era o verdadeiro amor, ser amada, encontrar sua alma gêmea, ajudar ao próximo e poder proporcionar uma vida melhor para toda a humanidade.

Terminado o discurso eles se beijaram longamente!
Nota da Autora:


Tia Regina, uma mulher que nunca teve filhos, e admira seus sobrinhos, como se estes fossem seus.
Esta é uma história narrada com grande admiração por um (a) de seu sobrinho (a).

Ela conta histórias a seus sobrinhos, e a cada uma encerra um ensinamento.

Uma mulher consciente e madura que sonha com a felicidade. Considerada por todos como louca, por seguir suas intuições.

Porém ela prova que ser sonhadora com os pés no chão é uma forma de vencer e consequentemente ter seus sonhos realizados.

Indico essa obra a todos aqueles que vivem a vida em preto e branco, deixando se levar por momentos tão sofridos aos quais encaramos nos dias de hoje.





                                                                                                               










O Sonho de Tia Regina


by: marciarmguimarães


























Palavras da autora:


Escrever, um sonho que eu tinha desde muito jovem, porém quando queremos uma coisa, temos que persistir e levar adiante este desejo.

Assim que tomei coragem e dei inicio a subida dessa escada, e conseguindo apoio de minha mãe, fã incondicional.
O sonho foi realizado.

No natal de 2003, presenteei aos amigos e familiares um exemplar artesanal desta historia.

E no dia 31 de dezembro deste mesmo ano desembarquei no aeroporto de Santiago, e lá encontrei uma editora, a qual editou meu livro em menos de um ano. O lançamento foi um êxito! Com quatro edições esgotadas.

Viajei convidada por quase toda América do Sul e parte da Europa, para divulgação deste livro.  Fiz grandes amizades nestes países: Uruguai, todo o Chile, boa parte da Argentina,
Peru, Tarija-Bolivia, Suíça, Itália e França.

Queridos leitores, sonhar com os pés no chão faz parte de nossas realizações.
















Agradecimentos:


Á minha amada mãe, falecida no dia 21 de dezembro de 2009. Que estará eternamente presente em minha vida, torcendo para que eu siga essa jornada, com toda felicidade que ela sempre me desejou.


Aos meus queridos amigos e confidentes, pela atenção e paciência de lerem a cada capítulo. Torcendo e incentivando para sua publicação.
Obrigada Kátia Pérola por sua admiração e força, pois se não fosse você, este livro estaria arquivado aqui no Brasil.

A minha amada família e especialmente a Kelly
Bandeira, minha sobrinha querida, que criou esta página para que fosse publicado este livro.





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Capítulo ZERO

Tia Regina

Todos criticavam tia Regina e seus sonhos, diziam que ela vivia no mundo da lua e voando.

Em realidade com ela aprendemos como um sonho pode ser realizado.

Hoje voltando ao passado, quando ainda éramos crianças , me fazem brotar lágrimas saudosas.

Tia Regina é normal?

 Perguntavam naquela época; eu também tinha minhas duvidas!

Ela não teve uma vida de rainha, passou por momentos amargos e sei que a fizeram chorar, porem nunca deixou a peteca cair, sempre teve coragem de enfrentar o monstro de olhos abertos, intuía o caminho e graças a sua intuição conseguiu realizar o impossível para a maioria.

Provou que ser sonhadora era normal, que as fantasias fazem parte de nossa felicidade.

Seu lema era: O show tem que continuar!

Contarei sobre essa personagem e meus melhores momentos junto a ela.


 









Capitulo um

Oh! Quantas saudades de
Minha tia Regina


Quando nasci ela estava com 35 anos. Magra, baixa, um corpo tipo violão, por ter uma cintura fina e quadril grande, pele clara, pernas de atriz italiana, cabelos ruivos, olhos verdes, nariz afilado e lábios grossos, não era uma beleza extraordinária tipo Sofia Loren ou Gina Lollobrigida, tinha um encanto próprio, distinta, luminosa, uma pessoa transparente, sem papas na língua.

Na realidade, estava sempre contente e ria com nossas peraltices, só havia uma coisa que ela virava fera, era quando alguém nos contrariava isso ela jamais permitia.




























Capitulo dois


Gente é Gente e Bicho é Bicho

 Meu primo estava com três anos e foi com tia Regina numa pracinha em Copacabana, ele adorava animais, quando viu uma senhora com um cachorro, correu para tocá-lo e a mulher se afastou não permitindo brincadeiras. Indignada tia Regina perguntou se o bichinho mordia, a resposta foi não, deixando bem claro que não queria que ninguém tocasse em sua mascote, uma demonstração de egoísmo fazendo a gentil tia Regina sair do sério. Ela o pegou no colo e disse:
-- Vamos brincar no parque, este pobre cachorro não é brinquedo e sendo um animal pode te transmitir doenças, você ainda e muito inocente para entender que gente é gente e bicho é bicho.

A senhora quase fulminou minha tia com um olhar de reprovação, esta, sabia fazer-se de indiferente quando precisava, não sei como ela conseguia franzir a boca de uma forma que assustava. Tia Regina adorava aos animais, a todos, não considerava justo prende-los num minúsculo apartamento, privando-os de sua liberdade natural, e disse:

_ Quando se ama de verdade a um animal não se cria em cativeiros, à maioria dos seres humanos confunde suas emoções. Veja esta senhora, deve viver sozinha e divide sua solidão com este pobre cachorro! Você sabe o que isto significa?
_ Perguntou a meu priminho.
_ Não. – respondeu – correndo para o balanço e pediu a resposta.
_ Egoísmo. – ela respondeu em alto e bom tom.
_ O que é egoísmo? – ele perguntou -
_ São as pessoas que não sabem compartilhar.
_ E o que compartilhar? – outra pergunta -
_Vou te dar um exemplo: Imagine num aniversario, com muitas crianças e um bolo pequeno, se é uma pessoa egoísta que reparte vai separar para ela o maior pedaço.
_ Entendi, são as pessoas que sempre ficam com a maior parte só pra elas.
_Muito bem! Exclamou!
Essa era uma de suas tantas qualidades, ela falava com as crianças de igual para igual, entendia que tínhamos potencial.
























Capítulo três

O Sonho


Eu e meus primos não entendíamos por que ela nunca teve um filho e jamais se casara. Sendo uma mulher bonita, inteligente e cortejada por todos aonde chegasse.

Jamais nos negava nada, e somente hoje, aos meus trinta e cinco anos. Entendo que ela sabia dizer NÃO com desenvoltura. Porque a sua maneira, sempre a obedecíamos.

Cresci ouvindo e admirando suas historias, eram as horas mais felizes! E quando lhe perguntávamos por que não tinha se casado ou tido filhos, ela nos respondia:

_ Espero a meu príncipe encantado!
_ Você já o conhece? Onde está ele?
_ Ele está em algum lugar deste planeta, inteligente, maduro, médico e escritor, seu rosto tem fortes linhas como de um grego, olhos verdes, cabelos grisalhos e encaracolados, voz grossa como a de um locutor de rádio, fala espanhol e tem 1:90 de altura!
 _ É rico?
  _ Tem uma situação financeira estável, mas isso não me importa!
_Ele è velho?
_ Não é mais novo que eu, três filhos e viúvo. Conhecemo-nos de vidas passadas.
Essa era uma de suas peculiaridades: esotérica, metade bruxa e metade cigana. Adorava fantasiar, viajar, dançar, conversar e namorar a moda antiga, dizia ser mais romântico. Seus sentimentos mudavam como o vento, mas eram intensos, assim que sempre estava apaixonada, porque seu coração pertencia a Juan Carlos!

Um senhor italiano amigo dela apelidou-a de banda e perguntávamos por quê? E ela sorrindo nos respondia:
_ Quando passa uma banda, todos acompanham velhos, crianças, cachorros, assim sou eu!
_ E você adora né tia? – E seu grande amor, também é da banda?
_ Ele e um pouco tímido, mas de um coração generoso, irradia luz!
_ Como é que sabe tanto a respeito dele? Vocês se conhecem e não quer nos contar? Vai tia conte-nos a verdade!

 Suspirou profundamente, levou a mão direita ao coração, fechou os olhos, curvando a cabeça pra traz, fazendo voar seus longos cabelos e disse:

_ Contarei a todos vocês: O verdadeiro amor é eterno de muitas vidas. E sei que um dia ele aparecerá e me perguntará:
_ Regina Magalhães?
_ Sim, responderei.
Ele me beijará longamente, nos casaremos e viajaremos pelo mundo ajudando crianças carentes.
_ Ai tia, você é louca?
_ Só porque tenho um sonho? Sonhar não è loucura! Não se vive de sonhos, mas podemos e devemos sonhar para viver. Se quisermos muito uma coisa imagine, entregue seu desejo ao universo, sem que percebamos esta imagem vai se consolidando até que se torna realidade.

_ Muito bem, _ disse Claudinho: _Suponha que tenha notas baixas em matemática, não estudo, sonhando com um dez na prova, porém quando me entregam o resultado, Reprovado.
_Ah! Isso è claro, vais tirar um bonito ZERO, temos que fazer a nossa parte, não se sonha por sonhar. Se você estudar para as provas, sem bloqueios, sem medo e conscientizando-se de sua capacidade, pensando positivamente, seu sonho sempre se realizará. Quando eu estava no segundo ano ginasial, não tinha muito tempo para estudar, precisava tomar conta de minhas irmãs. Tínhamos quatro provas ao ano e precisávamos somar vinte pontos na média final, eu estava mal em ciências e pedi ajuda a minha mãe, ela sem tempo me ensinava enquanto fazia o almoço. Esta era a última prova do ano, estudei muito.
Na minha sala de aula havia uma menina chamada Sueid, que sempre tirava as melhores notas, nunca foi para a final.
Porem no dia da entrega das provas de ciência o professor fez o maior suspense, e disse:
_ Estou muito decepcionado com vocês, hoje inverterei o jogo e chamarei primeiro as melhores notas, porem, reservei uma prova para comentar no final.
E logo a primeira foi da Sueid com 7,5. Bem todas as provas foram entregues, menos a minha! Tive vontade de sair correndo e nunca mais voltar a estudar, pensava desesperada: _ Tirei zero!
Ate que ele me chamou e pediu a todas as alunas que levantassem. E disse:
_ Regina Magalhães, eu reservei sua nota para o final:
 _Tirei zero?Perguntei.
_ Não minha querida, sua nota foi dez.
_ Dez?
_ Sim, acredite, hoje, ao chegar a casa fale com sua mãe, abrace-a e lhe agradeça.

Não pude controlar minhas lagrimas, fui cumprimentada por todas minhas colegas do grupo.
Naquele ginásio todos me admiravam por conhecer minha origem humilde, principalmente o professor Agras. Neste dia ele nos contou que o sonho de sua mãe era que ele estudasse medicina, e ele não tinha a menor vocação, assim que passou um bom tempo, enrolando a pobre senhora, a qual estava muito doente, ao se interar de sua enfermidade, resolveu empenhar-se, em passar na faculdade de medicina. Porém no dia do resultado dos exames ao ver que havia passado, foi correndo dar a boa noticia a sua mãe!
Ao chegar, esta havia sofrido um infarto fulminante. Por isso ele nos incentivava a estudar, acho que ele sempre se culpou.


Ah! Minha doce tia Regina. Sabiamente aprendia as lições da vida! Eu adorava quando ela dizia:_ Contarei uma historia _ Ela se sentava no sofá, deitávamos no seu colo,  acariciava nossos cabelos com suas pequenas mãos e iniciava a narrativa.

















Capítulo quatro

O Velho Rabugento


Era uma vez, uma casa de dez quartos, e esta pertencia a um ancião que vivia resmungando. Uma casa comum, mas que encerrava um grande mistério, um quarto de frente ao do dono da casa.

Trinta anos antes, ele havia enviuvado e convidou seu filho para morar no casarão. Este desempregado com três filhos pequenos e contra a vontade de sua mulher submeteu-se ao sacrifício de viver à custa do pai rabugento. O velho, logo no primeiro dia de convivência, ordenou:
_ Ninguém pode entrar neste quarto.
 A porta vivia trancada, a sete chaves. Despertando uma grande curiosidade nos habitantes recém-chegados, dando asas a imaginação, as mais absurdas, iniciando pelo casal, depois em seus filhos e finalmente nos bisnetos.

Tiveram que conviver e fantasiar suas curiosidades, afinal, um dia o pobre senhor, viria a morrer e finalmente terminaria o pesadelo.

Passaram-se os anos, e todos viviam à custa do pobre ancião, não trabalhavam, na escola eram sempre os piores alunos.

Todos tinham o mesmo sonho: O dia da morte do velho rabugento! Este dia era esperado como as soluções para suas vidas. Pensavam haver ali um tesouro, como o do Tio Patinhas, cheio de moedas de ouro.

E este dia chegou, o rabugento morreu, e seu corpo ainda quente, um dos netos, rapidamente, pegou a chave e abriu a porta proibida.
Tamanho foi o susto, que o jovem gritou forte e caiu desmaiado. No quarto totalmente vazio, sem nada, sequer um móvel, havia uma janela trancada com um pequeno bilhete amarelado, escrito a mais de três décadas atrás:

ª COM CURIOSIDADE SE VIVE, MAS VIVER NA PASSIVIDADE É UM DECLIVE.


_ Que velho louco! – lembro-me que exclamamos ao termino desta historia. E tia Regina nos esclareceu:
_ O velho rabugento ensinou a sua família que na vida não se sobrevive a sonhos sem fundamentos.

Nem sempre suas historias eram convincentes, mas me encantavam!


Claudinho estava com 14 anos e sua irmã,  de apenas dois anos, foram passar um final de semana em seu apartamento, isso sim era um sonho para nós! Ela virava criança.
Lá chegando, a pequenina foi até o quarto, enquanto meu primo e seus pais estavam na sala conversando. Quando der repente, escutaram um tremendo barulho de louça quebrando. Tia Regina correu na frente, e todos a seguiram. Lá estava à pequena, com cara de cachorro quando quebra o vaso, assustada se jogou nos braços da defensora de menores, que acariciava as costas da Ré já em pranto.
_ Não foi nada meu anjinho, cuidado para não se cortar.
_ Eu só queria botar o chapéu titia!
_ Ah, mas este chapéu era para a lâmpada, não servia pra sua cabeça.
_ Você compra um pra minha cabeça?
_Claro que sim!

Sara no colo de tia Regina como se esta fosse uma redoma, esperava a bronca de sua mãe. A situação tornou-se engraçada, porque tia Regina já estava acostumada com as reprovações de sua irmã, que lhe aplicava um sermão:
_ Não é assim que se educa Regina! Eu estava junto quando compraste este abajur, caríssimo e o único que havia na loja, sei muito bem que era seu sonho de consumo, seus olhos brilhavam quando o compraste. A menina quebra e não diz nada, pior ainda, promete comprar um chapéu? Está cometendo um grande erro.
_ Mãe educa e tia deseduca, nunca tive filhos e como vocês mesmas dizem, se os tivesse, os mal criaria, afinal, que fez de errado esta menina? Viu um abajur raro e por curiosidade ela quis usá-lo, uma coisa normal, uma perda felizmente material!
_ Bem, a casa é sua, as coisas são suas e o problema é seu.
_ Problema? Você vê nisso um problema? E de quem é esta casa? – perguntou tia Regina tentando conter o choro da pequena Sara ainda agarrada ao seu pescoço e respondeu:
_ É minha!
_ Isso, afirmava tia Regina.
_ Não posso aceitar isso. – disse minha tia contrariada – Não confunda a cabeça dela! – continuava sua teoria, agora se dirigindo a Sara:
_ Esta casa é da titia, a sua é onde moramos.
_ Sabe de uma coisa? Estou cansada dessa psicologia teórica que vocês usam agora. Enchendo a cabeça das crianças com realidades antes do tempo! Infância é somente uma, e passa muito rápido, se recriminamos tudo que fazem, crescem adultos amargos, egoístas, donos da verdade e realistas em excesso. _ Disse tia Regina já sem paciência com meus tios.
Coisa normal, depois disso, tomou um delicioso lanche e meus tios se foram, ficaram meus primos desfrutando o mundo mágico de minha tia amada. Ela pulava corda, dava cambalhota e ensinava brincadeiras e canções de sua infância, eles estavam tão felizes que não sentiram o tempo passar.
Sara falava sem parar, provocando gargalhadas em tia Regina, que incentivava o mundo imaginário, nisso ela era mestra. E anotava tudo em um caderno inseparável, ali continha coisas de todos nós, seus sobrinhos. A primeira personagem foi Roberta, minha prima mais velha. Lembro-me de ter lido nesse seu diário, esta passagem com ela: Estava com dois anos e tentava falar tudo correto, um dia ela se aborreceu com minha avó que assistia a sua novela na televisão, e Roberta se queixou com tia Regina:
_ Tia, eu pido, pido a minha avó e ela nada!
_ O meu anjinho, não é pido, é eu peço.
_ Então, eu pecei, pecei e ela nada!

Bem, nessa noite ela contou a seguinte história:





































Capítulo cinco

Simão e Dimas, dois pintinhos.

Era uma vez, num grande quintal, nasceram dois pintinhos: Simão e Dimas. Simão era metido e valente, Dimas ao contrario, humilde e medroso. Mal saíram do ovo, olhando o tamanho do pátio, Simão disse a Dimas:
_ Este é o mundo irmãozinho! E deve ser emocionante poder conhecer todo o terreno, vamos lá!
_ Ai, me dá medo, deve ser perigoso.
_ Não seja bobo. Veja! Tem patinhos no lago! Vamos nadar!
_ Espera, vou perguntar a mamãe se podemos nadar.
_ Vá, pergunte claro que podemos nadar, somos aves seu ignorante.

Simão saiu correndo em direção ao lago, mergulhou e afundou. Por sorte, um jacaré que nadava tranquilamente, abriu a boca e o salvou do fundo do lago, colocando-o na beira. Salvo Simão olhou nos olhos do jacaré, que estava com o corpo emergido e a cabeça apoiada na grama, e disse.
_ Obrigado por salvar-me.
_ Não há de que, seu tonto. De onde tirou essa idéia de que pinto pode nadar?
_ Mas sou uma ave, não sou?
_ Sim. – respondeu o jacaré.
_ E pato? O que é um pato? Não é uma ave? Ou pato é peixe?
_ Céus, um pato é ave e pode nadar.
_ E jacaré é peixe?
_ Não, somos répteis.
_ Que complicação! Vou subir naquela arvore e voar!
_ O Mané, você é suicida?
_ Claro que não, por quê?
_ Porque os pintos não voam.
_ Os pássaros não são aves?
_ São.
_ Por isso, as aves voam ou nadam, já que eu não nado! Posso voar!
_ Mas você não é um passarinho. Cansei você é uma cabeça dura, tenho mais o que fazer. Fui.

O jacaré mergulhou deixando Simão na beira do lago pensativo:
... Que mundo é este? Tem aves que voam, outras nadam. Jacaré que nada e não e peixe... Ah! Onde me encaixo nessa vida? – Bem, acabo de nascer, tenho muito a aprender.


Minha prima dormiu no meio da historia e Claudinho tentou esclarecer algumas dúvidas, mas tia Regina também estava dormindo.

Raramente ela lia historias, precisava usar óculos e sua vaidade não permitia. Gostava de interpretá-las, havia momentos tão bem representados, que em nossa imaginação parecia estar ali presente vários personagens, como num teatro.

Perguntávamos por que ela não havia entrado para uma escola de Teatro e respondia:

_ Sou uma atriz formada pela escola da vida, onde os melhores são sempre aqueles que trabalham com o coração.


Sua casa estava sempre cheia de amigos que a procuravam para desabafarem sobre seus problemas, ela os ouvia atentamente e sempre terminava com um bom conselho.

Era contadora, trabalhava numa empresa de Petróleo, não que fosse essa sua escolha por vocação, e sim por opção. Um dia eu a perguntei:

- Por que não entrou para a área médica como psicologia?
_ Eu era muito pobre, quando pequena sonhava sim em entrar para esta área, porém mesmo que eu fosse aprovada, não teria como arcar com os custos, pois os cursos desta área exigiam estudo em horário integral e eu precisava trabalhar para garantir minha sobrevivência. Assim que optei por uma área na qual eu pude trabalhar e estudar a noite. Logo que me aposente vou dedicar-me a escrever para crianças, adolescentes, carentes, etc. Por enquanto vou construindo meu pezinho de meia, viver do que se escreve é muito frustrante financeiramente.


Como eu admirava sua forma de ser, sonhar com os pés no chão, no fundo ela nunca pensou como adulta.
Uma vez foram ao supermercado, enquanto minha tia passava com as compras pelo caixa, tia Regina passou à frente para adiantar guardando a mercadoria, foi interditada por um garoto de quatro anos, que brigava com ela dizendo:
- Por aqui ninguém pode passar.
- Mas este cachorrinho quer sair.
- Ele também não pode.
Débora observava a cena com sua mãe e não havia cachorro nenhum, eles apontavam, conversavam, discutiam como se o animalzinho estivesse presente.
- Pobrezinho, ele vai chorar, Ih! Quer fazer pipi, o guarda vai brigar com ele.
- Eu sou o guarda aqui. – disse o pirralho –
- Ok, veja seu guarda ele vai para a rua!
- Não, ele não pode ir sozinho para a rua, é muito perigoso.

Em poucos instantes o moleque já estava no colo de minha tia, contando toda sua vida e beijando-a.
Minha tia já estava irritada com o menino, pegou as bolsas e saiu resmungando, tia Regina se despediu e foi ao encontro delas, como não podia faltar à velha pergunta, minha tia disse:
- Regina é normal?

Ela estava sempre sorrindo, nunca a vi reclamando, era positiva e dizia que Deus nos dá uma cruz com o peso que podemos carregar.

Quando menina foi vitima de abuso sexual, vivia em uma cidade do interior do Estado do Rio, com apenas 2.000 habitantes, tinha um ano quando foi viver ali com meus avôs. As crianças desfrutavam da natureza e da liberdade, animais eram criados nas ruas.
Naquela cidade, a garotada achava comum brincar de boneca, jogar futebol, pular carniça, da mesma forma que exploravam sua sexualidade.

Uma vez nos contou esta passagem de sua infância:













































Capítulo seis

Assédio Sexual Infantil


Eu tinha apenas sete anos, quando chegaram da Capital, um primo de minha mãe, com um homem que hoje imagino que deveria ter uns 35 anos de idade, eu adorava um morro perto de casa, assim que o convidei a conhecê-lo. Chegando, ele me olhava de uma forma diferente, sentou numa pedra para descansar e me disse que eu parecia com uma atriz norte-americana chamada Rita Hayworth. E lhe perguntei:
- Quem é? Eu nunca ouvi falar dela.
- Ela é linda como você, ruiva e sardenta.
- Eu não gosto dessas sardas, muito menos dos cabelos vermelhos, espero que sumam quando eu crescer.
- Quantos anos você tem?
- Sete.
- Somente? Sente aqui perto de mim.

Quando vi, ele estava com o pênis pra fora da calça, movendo-o com as mãos. Fingi que não vi e disse:
- Olha que flor linda! Vamos já esta na hora do almoço!


Desci o morro correndo como uma cabrita.  Entrei sem olhar ou falar com ninguém. Daí em diante nunca mais ficava ou permitia que minhas irmãs ficassem a sós com ele.

- E você não contou nada a seus pais?
- Não, a ninguém. Quando uma criança é assediada ela se sente culpada, tem medo de que não acreditem nela, porque sempre é a palavra dela contra a de um adulto.
- Mais meus avôs teriam acreditado em você.
- Eu sempre fui muito curiosa, e pensar em sexo ou se conhecer era considerado pecado. Por isso fiquei com medo de falar com eles. Hoje temos mais informação e diálogo com nossos pais, até mesmo nas escolas, naquela época o pouco que sabíamos era escondido, sempre através de uma amiguinha.
Porém em qualquer época uma pessoa mais velha assediar a uma criança é um crime inafiançável.


Contou-nos também que nesta mesma cidade vivia um casal de velhinhos que não tinham filhos e sempre a convidavam para dormir em sua casa, porque ela alegrava o ambiente com seu jeito meigo de ser.
Em uma noite, enquanto a senhora preparava o jantar pediu a tia Regina que fizesse companhia a seu marido dizendo-lhe: - Ele sabe desenhar muito bem –.
Tia Regina então foi até a sala e pediu ao senhor que lhe fizesse um desenho e ele respondeu:
- Com todo prazer, pegue o lápis. – disse ele com um tom insinuador e ela inocentemente lhe perguntou:
- Onde está?
E o velho pegou a mão de minha tia e colocou-a em seu pênis. Felizmente ela não era boba, fingindo que nada acontecia, voltou para a cozinha, sem comentar com ninguém, sentiu pena da senhora a qual ela amava como uma avó.

Naquela noite passamos por varias horas conversando sobre o abuso sexual e ela terminou dizendo-nos:

- Minha infância foi há muito tempo atrás, naquela época não se falava sobre os abusos, somente quando era um crime de repercussão nacional, como foi, por exemplo, o caso da Fera da Penha, uma mulher que matou e incendiou uma menina de sete anos no bairro da Penha. Hoje esses crimes continuam acontecendo, mas felizmente temos organizações em defesa de crianças e adolescentes.
- Então estas organizações não servem de nada?
- Claro que servem e benditas sejam, hoje as crianças estão legalmente amparadas, não necessitam temer pela incredibilidade de sua palavra.

E com os olhos cheios de água, balançou a cabeça, pois esta era a forma de disfarçar, enxugou as lágrimas com os dedos indicadores e suspirando nos disse:

- Se eu pudesse seria o anjo da guarda de todas as crianças, não permitiria que nada de mau lhes acontecesse.
- Mas você é nosso anjo!
- Tenham certeza que sempre estarei aqui para ajudar.
- E quando você morrer?
- Nunca morremos, somente mudamos de dimensão.
- Então por que choramos quando morre alguém?
- Somos imperfeitos, por isso nossos espíritos vivem morrendo nesta vida e despertando em outra. Sofremos com a morte, temos saudades quando perdemos um familiar, porque ainda não nos conscientizamos de que a morte é uma passagem para nossa evolução espiritual. Por isso é que um dia escreverei para crianças, quero deixar um pedaço de mim, isto é: minhas palavras.
- E nós teremos o grande orgulho em dizer que você foi nossa tia.
- E eu mais ainda por saber que estarei ajudando.
- Tia, você tem medo de alma do outro mundo?
- Já tive, quando era criança, vivíamos ao lado de um cemitério e eu tinha mediunidade.
- Mediunidade? O que é isso? – perguntamos assustados.
- Eu via pessoas que haviam morrido.
- Cruzes! É melhor mudarmos este assunto.
- Toda criança tem este poder, não precisam temer, lhes explicarei:




















Capítulo sete

Mediunidade Infantil


Numa noite me levantei pra ir ao banheiro, voltando para o quarto havia uma mulher negra sentada na beira de minha cama.
Apavorei-me e fiquei sem voz para gritar, fui ao quarto de meus pais, falei com minha mãe, porém ela estava cansada de tanto trabalhar e disse-me: - Vá dormir Regina. – eu obedeci e voltei, a mulher continuava sentada com o olhar fixo para o nada. Rezei um Pai Nosso e pedi que aquela visitante fosse encaminhada à luz. Abri os olhos e felizmente havia desaparecido o fantasma.
No dia seguinte mamãe me perguntou o que havia acontecido, eu lhe expliquei e ela me disse que havia sido um pesadelo.
- Mas a vovó acredita em espíritos. – dissemos –
- Hoje, naquela época ela não tinha tempo para nada, seria um tema que renderia uma conversa prolongada, talvez por isso para ela fosse melhor se fazer de desentendida.
- Mas tia, você acredita em espíritos, nós também, mas e as crianças que são de outra religião?
- A fé independe de religião, se tem uma visão, fale com Deus, reze, fale com seu anjo de guarda. Não existe este Deus que te castiga ou que te condene, ele é pura luz e bondade. Nós próprios é que nos condenamos, por isso estamos de passagem e a cada encarnação voltamos mais evoluídos.  








Capítulo oito

O Adolescente e a vida Sexual


Minha prima estava com 17 anos de idade e namorava um rapaz chamado Júlio, dois anos mais velho que ela. Tia Regina chegou ao apartamento onde moravam meus tios, ao entrar na sala, deparou com os dois pelados no sofá. Ela fechou a porta pela qual havia entrado e disse em voz alta do lado de fora:
_ Vou tocar a campainha, sou eu: Tia Regina.
Ela deu um tempo para que o casal se vestisse e tocou a campainha. Roberta abriu a porta com cara de poucos amigos e Julio com má vontade dirigiu-se a tia Regina e disse:
_ Desculpe tia, foi mau.
_ Calma, vamos conversar – disse tia Regina.
_ Deixemos para outra hora, estou atrasado, tenho que ir à universidade.

Ele estudava medicina e tia Regina, ironicamente disse:
_ Você estuda muito, penso que interrompi uma aula de anatomia. Faz bem em estudar, porém quero sentar-me com vocês e orientá-los.

Julio desconcertado saiu rapidamente com um sorriso amarelo, Roberta sentou-se num sofá e disse:
_ Pronto, vai me dar um sermão, contar a minha mãe ou marcar uma reunião com a família?
_ Nem uma coisa, nem outra. Desde quando sou um padre para fazer um sermão ou uma fofoqueira que fala aleatoriamente sobre a vida alheia?
_ Para tudo existe uma primeira vez, sei muito bem que não é perfeita, pessoas boazinhas como você um dia botam as mangas de fora. Passa pra todo o mundo que é uma santa, evoluída, mas tenho certeza que tem seus preconceitos. Sou adulta e dona do meu nariz. Ta bem, não sou mais virgem, tomo anticoncepcional e não quero engravidar-me cedo assim como fez minha mãe. Antes era diferente, o mundo mudou, você sabia? Nós mulheres já não vivemos mais de sonhos a espera do príncipe encantado, a vida evoluiu, já não temos mais fantasias, vivemos num mundo real, hoje...
_ Posso falar? – interrompeu tia Regina – Você está mesclando as águas. Entendo perfeitamente sua reação, invadi um momento de sua privacidade, mas assim como fui eu, poderia ter sido seu pai, sua mãe, sua avó ou sua irmã. Pense bem, não temos o direito de impor nossas atitudes, principalmente se vivemos debaixo do mesmo teto e dependemos dos pais para nos manter financeiramente. Você não é obrigada a pensar como nós, o que é obvio, mas tem o dever de respeitar. Seria errado se entrássemos em sua casa sem avisar, mas esta casa é de seus pais.
_ Perdão tia, foi mau.
_ Não tenho que lhe perdoar minha princesa, você apenas não se preocupou com as conseqüências.
_ Ainda bem que foi você, se fosse meu pai! Nossa! Nem pensar, ele se acha o todo poderoso, o dono da verdade.
_ É porque ele lhe ama e como a maioria pensa que pelo fato de ser adulto tem sempre razão. Nós os mais velhos, não poderíamos exigir que os jovens pensassem como nós, não somos perfeitos.
_ Seria tão bom que meu pai também pensasse assim, será que ele nunca entenderá que eu cresci?
_ Para os pais os filhos jamais crescem, são como seus eternos pintinhos, alguns são como Simão, que pensam saber de tudo caindo nas garras do mundo, pensando porque jacaré não é peixe e nada e porque um pintinho é uma ave que não voa.
_ Pobre do Dimas! Ele obteve as respostas da mãe?
_ Veja – insistiu tia Regina – onde quero chegar, as mães protegem, mas não sabem a resposta correta. Só o tempo às conhece! A vida é uma encruzilhada, cabe ao nosso instinto saber qual o caminho seguir, o qual chega na hora exata. Porque para cada coisa tem o seu tempo. E sabe que nosso corpo é quem nos reflete este momento?
_ Não tia, agora você viajou na maionese!
_ Sabe quando uma criança já está preparada para aprender a ler e escrever?
_ Aos cinco, seis anos, depende. Você que sabe tudo, então me explique?
_ Quando a criança consegue passar um dos braços sobre a cabeça e tocar sua orelha com a ponta dos dedos. – explicou tia Regina-
_ E como sabe disso?
_ Uma amiga me contou e eu comecei a observar.
_ Se o corpo nos mostra a hora, então já estamos prontas para ser mãe logo que vem nossa menstruação?
_ Eu entendo que do ponto de vista biológico sim. No entanto nosso organismo ainda necessita de um período de maturidade para o desenvolvimento adequado dos órgãos. Por exemplo: depois que nascemos para aprendemos a caminhar, este processo de aprendizado leva uns dois anos; assim como para aprendermos a falar é preciso mais dois anos.
_ Não entendi.
_ Quero dizer que não nascemos aptos para desempenharmos as tarefas que a vida nos impõe. Quando chega a primeira menstruação?
_ Aos doze, treze anos – respondeu Roberta espontaneamente.
_Veja, está afirmando minha teoria, o que passa quando temos filhos na adolescência: Uma grande maioria não tem a maturidade necessária para exercer adequadamente a maternidade.  Tudo tem seu tempo e são tão prazerosas, as fantasias, o amor e os sonhos!
_ E sonhar é contigo mesma.
_ O que esta acontecendo hoje em dia é um excesso de realidade, as crianças não crêem mais em Papai Noel, na cegonha, no coelhinho da Páscoa, todos estes sonhos foram roubados por uma série de fatores; podemos destacar dentre eles a evolução tecnológica e o consumismo gerado pelo sistema capitalista. Em minha época se conservava a virgindade e quando se transava antes do casamento, os pais falavam: Minha filha foi desonrada.
_ E você pensa assim?
_Claro que não, se himem fosse honra nunca se romperia. O que quero passar para vocês adolescentes é o valor de uma relação sexual, sexo não é uma necessidade biológica, se assim fosse somente transaríamos no cio como os animais. Temos que saber a importância deste ato, com quem estamos fazendo e por que. Transar é uma explosão de amor em sua máxima plenitude. Quantas mulheres fazem amor sem atingir o orgasmo? Temos que estar preparadas e sabermos a importância de fazer amor.

_ Como foi sua primeira vez tia?
_ Eu tinha a sua idade e namorava um rapaz sete anos mais velho que eu, quando nos encontrávamos era maravilhoso, sentia que ia explodir de prazer, quando nos beijávamos era uma sensação mágica!
Era muito gostoso, eu sonhava na noite de núpcias.
Porém ele comprou um carro e numa tarde fomos ao cinema, pela primeira vez depois de três anos de namoro, tivemos o consentimento de sairmos sozinhos.
_ Vocês nunca saiam a sós?
_ Imagine, estávamos no inicio dos anos 70, os casais não podiam sair sem que tivessem acompanhados, ainda que fosse por uma criança impunha respeito.
_ E servia pra alguma coisa?
_ De certa forma dificultava, se naquela noite estivéssemos acompanhados não teria passado esta terrível experiência. Fomos ao cinema e na saída ele pegou o caminho da Barra da tijuca, onde existiam os Motéis, lhe perguntei por que fazia aquele caminho e ele me disse: - tranquila, vamos assistir uma corrida de submarinos.
_ Mas tia, eu não posso acreditar que você caiu nessa.
_ Hoje eu sei meu anjo, mas nossa geração era pura, eu acreditei e fui. Ele estacionou o auto na beira da praia e aí imaginas!
_ Imagino! Mas me conte com detalhes:
_ Eu estava incendiando ele me beijava a todo tempo e controlava minhas mãos, até que consegui falar e murmurei:
_ Estou com medo. –e ele me consolou dizendo: - Vamos a um lugar mais seguro.
Assim que fomos a um Motel, ao chegar, todo aquele ambiente sinistro, sabendo que todos estavam ali com um único propósito, já não era um sonho, toda minha excitação transformara-se em preocupação e num grande medo de engravidar. – Ele continuava me acalmando, até que senti ser penetrada, foi uma dor terrível, ardia e assim se foi minha virgindade. Ele gritava comigo quando comecei a chorar não de dor material e sim a dor de sentir todas minhas fantasias desfeitas, principalmente o amor e a confiança que eu depositava nele. Fomos para casa, sem uma palavra sequer e terminamos o namoro.
_ Que horrível! – E não tentaram outra vez? Ele aceitou tranquilamente? E se estivesse grávida?
_ Não, nada mais tinha a fazer a não ser esperar minha menstruação que felizmente veio dias depois, embora sendo mais velho que eu, ele não tinha maturidade suficiente.
_ O que foi que alegaste a ele?
_ Que eu não estava preparada.
_ E ele aceitou assim, numa boa?
_Não só aceitou como deu a entender que somente se casaria com uma menina virgem.
_ Que maldito! – exclamou Roberta –
_ Este era o conceito da maioria dos homens, até pouco tempo atrás, falo do inicio da década de 80, sabe que ainda fazia parte da separação consensual uma clausula que dava direito ao homem de anular o casamento quando constasse na noite de núpcias que a mulher não era mais virgem!
_ Cruzes que atraso!  – Mas tia e depois? –
_Bem, depois tinha meus namoricos e fingia ser virgem.
_ Está se reservando para Juan Carlos?
_ Este é o meu sonho, casar-me apaixonada, ser amada, admirada e cúmplice da felicidade. Creio tanto nesse sonho que será realizado, não importa quando.
_ Você quer casar, com cerimônia e tudo mais?
_ Claro que sim e com minha alma gêmea.
_ Você acredita em almas gêmeas?
_ Acredito é claro!
_ Tia, você me perdoa pela forma grosseira como te tratei? Não sei o que me deu jamais me passou pela cabeça as coisas que te disse, você é a pessoa mais maravilhosa deste mundo.
_ Na verdade me senti ofendida sim, mas isso somente acontece com as pessoas que amamos, se fosse uma pessoa indiferente para mim, que se dane! Mas entendi que sua atitude foi um mecanismo de defesa ao ser surpreendida num momento de intimidade.  E quando eu disse que queria conversar, não foi com o intuito de reprovar, mais sim com a intenção de orientá-los, para que tomem determinadas precauções, como por exemplo:
 O risco de uma relação sexual não é somente uma gravidez indesejada. Existem as enfermidades venéreas sexualmente transmissíveis, tais como: gonorréia, sífilis, condiloma, hepatite B e finalmente a doença do século a AIDS, etc. E todas estas doenças não se previnem apenas com o uso do anticoncepcional, o qual, além de conter em sua fórmula uma forte dose de hormônios que acabam sobrecarregando o organismo.
Sem falar na falta de seriedade do controle de qualidade não só deste medicamento, assim como de muitos outros, que em diversos casos, são produzidos de pura farinha não surtindo nenhum efeito.
Não existe grupo de risco, pobres daqueles que pensam que pelo fato de ter apenas uma parceira, está livre de doenças.
_ É verdade, me lembro da Alicinha, minha amiga da escola, que namorou apenas dois meninos e justamente o primeiro tinha AIDS e ela morreu aos dezessete anos de idade.
- Exatamente, uma menina que não tinha vícios, tranqüila, que nunca fez transfusão de sangue, que supostamente não fazia parte do grupo de risco, morreu em plena adolescência diagnosticada por seu pediatra. Se a enfermidade não tivesse se manifestado, quem poderia imaginar que ela seria soro positivo?
_ Ninguém, ela muito menos, como suspeitar que já estivesse condenada a morte? Mas fique tranquila, que eu só transo de camisinha. – disse Roberta -
_ E, por favor, não deixe de levá-la na carteira, nada de vergonha e muito menos de acreditar no velho ditado de que o uso da camisinha numa relação sexual seria o mesmo que chupar bala com papel, isso é pura ignorância e inconseqüência. E agora basta de papo e vamos arrumar seu quarto!

 








 Capítulo nove

Ordem e Progresso

Minha prima tentou por varias vezes adiar a arrumação de seu quarto. Lembro-me de que Roberta nunca o havia arrumado até este dia, e perguntou pela centésima vez.
_ Arrumar o quarto agora tia?
_ Sim, porque não?Ontem fiquei apavorada quando entrei naquele mafuá, era pura bagunça!
_ É uma bagunça organizada. – argumentou Roberta -
_ Desde quando bagunça é organizada? O nome já diz tudo: BA GUN ÇA.
_ Eu me entendo bem com ela. – insistiu Roberta.
_ Meu anjo, a limpeza e a organização da nossa casa refletem em nossa vida.
_ Já vem você com suas bruxarias!
_ Não se trata de bruxaria. Tente organizar suas coisas, limpar, jogar ou dar de presente às coisas que não usa, tire a poeira, pois esta gera má energia.  Somos moléculas de luz, vibração, observe o peso que sentimos quando estamos sujos: transpiramos, exalamos odor desagradável. E o que nos passa depois de um bom banho? Ficamos energizados, rápidos e bem dispostos, pensamos melhor, raciocinamos mais claramente, dormimos bem e assim prosperamos.
_ Mas tia, a Gloria cuida disso! – Tentando mais uma vez fugir da árdua tarefa, transferindo-a para Gloria (a arrumadeira)
_ Pobre Gloria, é responsável por todo o serviço da casa e em relação à organização de seu quarto, o máximo que consegue fazer é guardar suas roupas. Experimente você mesma se ocupar dessa tarefa e depois me conte!
_ Tentarei, mas preciso de sua ajuda.
_ É pra ontem. – disse tia Regina já na porta do quarto.
As duas passaram três dias arrumando a desordem. Roberta espantou-se ao ver tanta coisa guardada, ou melhor, dizendo: amontoadas.

No final daquele mês, casualmente Roberta ganhou um computador do meu tio, que lhe disse: Há tempos vinha pensando em comprá-lo, porém quando via a desordem de seu quarto pensava: - Vou jogar dinheiro fora, se Roberta não liga para arrumação de suas coisas, como cuidará de um computador? – Porém graças ao apoio de tia Regina você me convenceu de que tem capacidade.

Roberta ligou na mesma hora dando a noticia. E minha tia disse:

_ Vê? A ordem trás o progresso! Estou orgulhosa de você meu anjo!

Passei a observar o quanto tia Regina era organizada, seu apartamento era muito pequeno, sala e quarto, porém havia uma dependência de empregada que ela transformou num escritório. A cada ano ela mesma pintava, mudava a decoração, as cortinas, os almofadões e adorava quando elogiavam sua casa, dizia que nosso lar é um Templo.

Contou-me que quando mais nova, vivia num conjugado, porém era o que conseguia pagar com o salário que recebia, estava namorando um tipo rico. Este, um dia a levou para conhecer seus pais, que moravam num senhor apartamento de 800 metros quadrados, no décimo andar, na Av.Delfin Moreira. Tia Regina achou um exagero, um espaço tamanho para apenas três gatos pingados morarem, bem, ela se adaptava a qualquer situação. E a cada vez que ia ao lavabo, ela dizia ao namorado:
_ Sabe que meu apartamento inteirinho cabe aqui dentro?
_ Verdade? Não acredito! Por isso que você nunca me convidou para conhecê-lo?
- Seu bobo, não é nada disso é que ainda não houve oportunidade.

Ela não podia recusar o convite e também deixar de retribuir o jantar, assim que marcaram para o próximo sábado. O apartamento era um pequeno retângulo, á direita ficava a porta de entrada, com uma saleta onde mal cabia uma mesa e quatro cadeiras, do lado esquerdo paralelo a sala havia um armário que era a cozinha embutida e ao lado um banheiro, depois desta saleta vinha o grande cômodo de 9 metros quadrados. Mesmo sendo pequeno ela fez um milagre, todos admiravam a decoração, muitas plantas e poucas cores.

No sábado estava elétrica preocupada com detalhes sobre a decoração de seu apartamento. Encontrou na lixeira do andar, um tapete de palha, - cabe perfeito sob a mesa – pensou, recolheu e executou.

Perfeito! – O tapete compôs harmoniosamente a saleta, analisando os detalhes uma coisa não a agradava: Era uma lâmpada pendurada pelo fio, justo sobre a mesa! - outra olhada e mais uma idéia! – Lembrou-se que havia no seu guarda roupa uma antiga bolsa de palha a qual fazia muito tempo não a usava, que em poucos minutos transformou-se numa luminária.
Ao chegar, seu namorado ficou encantado e surpreendido, como poderia uma pessoa morar num apartamento tão pequeno e decorado com tanto bom gosto.
E ele disse:
_ Que mundo lindo o seu Regina!
_ Obrigada, depende a que mundo se refere – disse ela sorrindo –
Porque se a referencia for meu apartamento o seu seria todo o universo e muito mais.
_ Não é do apartamento e sim de sua forma de ser, te admiro tanto!
Até que saiu um beijo, coisa preferida de tia Regina. Estavam no sofá do grande Três X Três, quando sentiram um cheiro de coisa queimando.

Eu perguntei, já imaginando a resposta:

_ O que aconteceu? Não Me diga que era a bolsa incendiando!
_ Era, foi uma vergonha e tanto, mas que me fez aprender uma coisa, não se vive um sonho sem antes dar corpo, me entendeu?
_ Assim como a historia do velho rabugento?
_ Correto, ser ambicioso faz parte da nossa vida, mas temos que primeiro concretizar as bases. Eu era muito jovem, tive uma idéia e a executei. Poderia ter dado certo se eu tivesse feito uma armação de arame e afastado a palha do calor da lâmpada.
_ Mas você só queria fazer uma presença.
_ E que presença! Mas sabe de uma coisa? Morro de rir quando me lembro desse episódio.


Sua vida, a pesar desses eventos engraçados.
Era próspera, ela sempre vencia as batalhas e quando alguma dificuldade surgia em seu caminho e planos ela dizia:
_ Faz parte do meu show e o show tem que continuar!






































Capítulo dez

Câncer de Mama


Perto de sua aposentadoria, ela estava pensativa, a diretoria da empresa onde trabalhava queria que ela continuasse trabalhando. Um dia, Carlinhos foi visitá-la e percebeu que alguma coisa se passava, então lhe disse:
_ Tia, embora esteja tentando ser uma fortaleza, sinto que alguma coisa vai mal, eu sei que sou jovem, tenho somente 14 anos, mas posso tentar te ajudar.

Seus olhos encheram de lágrimas e ela lhe disse:

_ Como sou orgulhosa de você meu anjo, ser jovem não significa imaturidade, veja, você me radiografou, estou sim com um drama, preciso desabafar com alguém, graças a Deus que vieste me ver.

Sua autoestima foi nas nuvens. Tia Regina, aquela grande pequena mulher de 50 anos, precisando aconselhar-se com ele! Aquela mulher que sempre encontrava uma solução, que nos amparava com suas palavras, que era nosso refúgio, estava ali na frente dele, recostada em seu colo e ele acariciando seus cabelos suaves e perfumados. Era como se fosse uma adolescente precisando se desabafar, teve vontade de chorar com tamanha emoção.
_ Fale tia, tentarei fazer como você, saber ouvir. _ disse Carlinhos, se sentindo um Homem -
_ E começou muito bem, saber ouvir, sabe a diferença entre ouvir e escutar?
_ Não. – ele respondeu -
_ Ouvir é atender e escutar é entender.
_ Ouvirei e escutarei.
_ Vou direto ao assunto, descobri um nódulo no meu seio, fui ao medico, ele fez a biopse e o resultado foi positivo, estou com um câncer de mama, não tenho medo de morrer, você sabe disso, mas ainda tenho tantos sonhos por realizar. Sei que houve muitos avanços na medicina e em outros campos, na minha época sequer falavam em câncer, diziam aquela doença, muita coisa mudou nesse meio século de vida, venho da era do rádio, dos discos de vinil...
_ Discos de vinil?
_ Vieram em 1948 substituindo os anteriores chamados de goma-laca que eram de 78 rotações por minuto. Os televisores eram enormes de forma arredondada e imagem preta e branca, havia uns plásticos com três listras coloridas que colocávamos para iludir uma imagem a cor.  Os telefones eram pretos e grandes que às vezes passávamos um dia para conseguirmos completar uma ligação, até chegar o sistema digital, os celulares e finalmente os computadores, sabia que o chamavam de Cérebro Eletrônico?
_ Por quê?
_ Coisa dos Norte Americano quando em 1943 criaram o ENIAC assim o chamavam, era mantido em uma sala refrigerada e só foi patenteado depois da II guerra mundial em 1947, busque na internet, lá encontrará todas essas informações.
_ Que barato! Tia, eu nunca me liguei nisso.
_ E sabe de uma coisa? Lembrando e vivendo essa evolução humana e tecnológica que me sinto preparada para esta cirurgia.
- Isso é maravilhoso. Eu sabia que chegaria a essa conclusão, tirou um peso enorme de cima de mim, estava com medo de não poder te ajudar.
_ Como não me ajudaria! Se não fosse por você eu estaria chorando.
_ Eu não falei nada.
_ Ouviu e escutou, esta é a melhor ajuda, você soube me analisar, apesar de sua pouca idade, demonstrou possuir uma sensibilidade que supera a de muitos adultos. Esta atitude de sua parte foi muito nobre e como sou conhecida por maluca, te digo: O show tem que continuar!
_ Tia eu te adoro!
_ E você é a razão do meu viver!

Abraçaram-se chorando e pediram aos mestres superiores que lhe dessem forças e coragem para superar aquele mau momento.

Ela fez a cirurgia e não foi necessário retirar a mama, pois tia Regina fazia exames frequentemente. Todos souberam depois, já quando estava tudo resolvido. Isso porque tia Regina tinha suas superstições, ela dizia que nunca se deveria contar com o ovo dentro da galinha. Assim que depois de todo acompanhamento, colocou uma prótese, tão logo que foi liberada. E orgulhosa nos dizia:
_ Na vida nada acontece por acaso, eu sempre quis ter seios maiores e consegui!







































Capítulo onze

O Adolescente e as Drogas



Quando finalmente ela se aposentou, seus amigos a homenagearam com uma grande festa.
Viajou por 40 dias e como dizia, começou a dar bases a seus sonhos, comprou uma casa na região dos lagos e lá escreveu seu primeiro livro para adolescentes, foi um sucesso, minha avó então lhe pediu que escrevesse sobre sua vida e lógico que ela o fez.

Nessa casa tínhamos espaço para muitas pessoas e claro que nós, seus seis sobrinhos éramos assíduos, nos finais de semana, férias, feriados, enfim, sempre.

Num dia de verão, tia Regina chegou a casa com um ar aborrecido, foi direto para seu quarto e somente saiu depois de algumas horas, percebi que seus olhos estavam avermelhados. Aproximei-me dela e disse.
_ Necessita de uma analise? É grátis.
_ Meu anjo da guarda –respondeu soltando sua gostosa gargalhada-
Analista, como poder ocultar de você algum problema! Vamos até a varanda, tenho um probleminha sim.
_ Seus olhos estão dizendo tudo.
E ela como sempre, ia direto ao assunto e contou:
_ Sabe, peguei um táxi para o centro, quando fui pagar notei que havia sumido dinheiro da minha bolsa, porém ontem fui ao caixa eletrônico.
Você me conhece, nunca me deixei dominar pelo dinheiro, muito menos contar quanto tenho o que me preocupa é que foi um furto dentro de casa, quem fez e por quê?
_ Isso é grave tia, muito grave.
_ Meu Deus, a única coisa que passa pela minha cabeça é droga!
_ Ai tia, isso me arrepia! Por que droga?
_ Infelizmente quando se entra neste mundo a pessoa se modifica em seu meio familiar, se torna mais dócil, vulnerável, suas ações se transformam numa tentativa de esconder esse caminho sem volta. Mais vocês são criados com diálogos francos, sinceros, livremente, somos uma família onde existe harmonia e amor. A única pessoa estranha é o Roberto, amigo do Claudinho, ele é introvertido, não te olha nos olhos, se nota que em sua família não há união.
_ Será?
_ Não somos ninguém para julgar, muito menos acusar sem provas. Vamos nos reunir depois do jantar, sei que teremos uma agradável surpresa. Tenho um bom pressentimento.
_ Ah minha tia bruxa!

À noite nos reunimos e tia Regina disse:

_ O motivo desta reunião é muito sério: Sumiu dinheiro da minha bolsa, gostaria de saber somente a verdade, seja qual for. A mentira tem pernas curtas e sempre é descoberta. A verdade às vezes parece difícil, pois achamos que nos trará sérios problemas, porém é melhor sofrer momentaneamente a ter que enfrentar o desmoronamento de uma mentira. Na vida não existe erro e sim fracasso. Engana-se aquele que pensa que a culpa de nossos fracassos é sempre de outra pessoa, dos pais, dos amigos, de A ou de B. Se engana aquele que foge pensando que vai escapar de suas responsabilidades.
A primeira desconfiança que tive foi que algum de vocês está envolvido com drogas. E a droga nunca foi válvula de escape de problemas, nunca foi e nunca será uma forma de levar a vida adiante.
 Quem já viu uma pessoa que se droga ser feliz? Ou alguém feliz que se drogue? Quem já viu um traficante drogar-se?
É com imenso pesar que atravessamos hoje momentos de grande sofrimento quando todo o dia presencia morte de crianças causada por overdose, geralmente de classe média alta.
Se algum de vocês estiver passando por isso não tenha vergonha de pedir ajuda.

O silencio era aterrorizante, apenas se ouvia as ondas do mar batendo na areia, silencio o qual foi interrompido por Claudinho com a voz embargada:
_ Perdoa tia, eu peguei o dinheiro, mas juro que não foi pra comprar droga, a verdade é que eu e Roberto conhecemos umas meninas e as convidamos para o cinema, eu ia te pedir, mas você não estava depois eu ia te contar e me esqueci.
_ Se esqueceu de contar ou sentiu vergonha?
_ Em realidade tive vergonha, pensava em pedir ao papai e repor o dinheiro.
_ Mas meu anjo, vergonha de mim?
_ Não sei por que, foi instintivo. Por quê?
_ Medo de ser advertido. Quando somos crianças pensamos e julgamos os mais velhos como autoritários, donos da verdade, isso é normal, por mais que tentemos aparentar que somos amigos, esse é um tabu que só mais tarde é que compreendemos que nossos pais falam, recriminam para nosso bem e só entendemos quando passamos a mesma situação com nossos filhos, atenção Roberta!
 Roberta estava grávida da sua primeira filha.

_ Bem assunto encerrado, eu sabia que não era o pior, a cada falta encerra um aprendizado. Quase tive um piripaque ao escutar o meu bebe dizendo: - Tia fui eu! O chão fugiu dos meus pés! Lembrei-me daquele pestinha chegando a meu apartamento querendo tomar banho de banheira e eu exausta inventava que as toalhas estavam de molho, ele insistia, até que tinha uma furada e fiz um escândalo dizendo que entre elas havia uma que mordia.
- E ele acreditava?
- Não só acreditava como morria de medo. Era um descanso.
- Bem já haviam comentado comigo que você não era normal. – Disse Roberto à tia Regina que chorava de tanto rir e em coro, todos nos gritamos:
- Tia Regina é normal?
- Normalíssima! – disse ela sorrindo – E por falar em normal – aproveitando que Roberto esta aqui e já faz parte da família, nada mais justo que receba parte de minha herança.
- Herança? Como assim?
- Você não sabia que sou herdeira do mundo?
- Que doideira é esta?
- Quando nasceu minha primeira sobrinha...
- Eu. - levantou-se Roberta e completou a narrativa: Sabem o que ganhei dela? Pasmem a Lagoa Rodrigo de Freitas. Eu acreditava mesmo que era a dona, todo o domingo ia cuidá-la, andar de pedalinho, era um barato! Quando eu estava com sete anos nasceu Débora, agora vem a rivalidade.
- Rivalidade não Roberta – disse Débora – Lhes contarei: Eu adorava passar os finais de semana na casa de quem?
E novamente em couro dissemos:
- Da louca de tia Regina!
- Claro, acho que puxei muito a ela e um dia eu lhe disse: Que praia linda! Referindo-me a toda a praia de Copacabana ao Leme e ela sem pestanejar me doou todo aquele patrimônio, dizendo:
- É sua herança da titia. Gente eu amei a idéia e um dia passando pela lagoa eu ri baixinho e comentei com tia Regina: Olha o tamanhinho da herança da Bebeta!
- Carlinhos ficou com a Região dos Lagos, Claudinho todos os parques de Copacabana. E doze anos depois veio Sara e como estavam morando fora do Rio de Janeiro, herdou todas as cascatas e cristais do cerrado de Goiás.

- Eu então oficializei minha herança, Foz do Iguaçu. – Foi uma baderna geral – e tia Regina disse: Nada de brigas, somos herdeiros do mundo, temos que cuidá-lo com amor.

Naquela noite mais que especial e uma das ultimas reunidos, ela criou acho que um dos melhores contos para nossas vidas, o qual passou a ser meu livro de cabeceira.












 Capítulo onze

A lenda da vida




















Num campo afastado do barulho de carros e burburinhos da cidade, um casal de crianças, Maria e João, brincavam de pique esconde. Estavam suadas, de tanto que corriam embora fosse uma fresca tarde de primavera com sua temperatura amena, uma suave brisa tocava seus rostos vermelhos de calor.

De repente se assustaram quando uma chuva de sementes coloridos e tamanhos diversos caía de uma solitária árvore frondosa, localizada no centro do gramado onde brincavam.

- Olhe! Exclamou João! Que apontava espantado, com uma das mãos e a outra segurava a cabeça, como que saudando aquele fenômeno, enquanto que Maria tapando os olhos com as duas mãos gritava:
- Isso é coisa do demônio, vamos correr daqui.
- Maria observe, são lindas e caem da árvore e sendo da arvore é da natureza e natureza é Deus!
João agora com os braços estendidos pra cima girava alegremente debaixo da chuva encantada.
- Tens razão João. Disse a arvore. - causando espanto nas crianças -
- Não se assustem meu nome é VIDA e estas são minhas sementes, colham-nas e semeiem-nas.
Ao completarem 45 anos de idade, voltem a este mesmo local, que aqui estarei a esperá-los e somente nesta ocasião é que saberão seu significado.
As crianças colheram todas as sementes e no caminho a suas casas fizeram um pacto:
- Maria este será um segredo nosso. – disse João.
- Por quê? Quero ver a cara de todos quando souberem.
- Você acha que vão acreditar? Internar-nos-ão num hospício ou vão nos exorcizar.
- Mas temos a prova, olhe! E ao mostrar as sementes Maria gritou:
- Olhe são todas iguais são comuns!
- Está vendo? Este é um sinal de que não temos eu contar para ninguém.
E para frustração de Maria, foi o que fizeram.
Maria era uma menina introvertida, não tinha amigos, em sua cabecinha de apenas nove anos, guardava um grande complexo de inferioridade, filha única e seus pais eram grandes empresários, prósperos, sem problemas financeiros.
Ela estudava no melhor colégio de uma pequena cidade, todos os anos viajavam pelo mundo e ao voltar de férias suas colegas de turma, perguntavam como eram os países, seus costumes, as paisagens...
Ela respondia:
- Isso não me interessa pra nada, não me misturo, prefiro ficar no melhor hotel e aproveitar das regalias.
Vivia no seu mundinho vazio e solitário, por isso não tinha amigos.


Nesta noite ao chegar a casa João soube que seus pais iriam morar no norte, pois a fabrica na qual seu pai trabalhava como vigia, fora transferida para Manaus.
Correu até a casa de Maria e lhe deu a noticia que caiu sobre ela como uma punhalada em seu coração, não pode conter suas lágrimas e abraçou ao amigo perguntando:
- Com quem vou conversar agora?
- Com suas amigas do colégio.
- Não tenho amiga, elas fogem quando tento me aproximar, sou tratada de burguesinha.
- Tem a seus pais, converse com eles!
- Até parece, eles estão sempre trabalhando, nunca estão em casa, me ignoram.
- Não é assim, eles trabalham muito, te amam e não querem que te falte nada.
- Pois preferia que me faltasse tudo, menos a atenção, coisa que não tenho.
- Você está sendo dura.
- É a verdade. Você se lembra quando tive uma virose? O medico veio aqui em casa, eles pagaram uma enfermeira pra cuidar-me e sequer passaram uma horinha comigo. Vez ou outra que minha mãe da porta me mandava um beijinho barulhento.
- Experimente se abrir com eles, vai ver não percebem que isso te faz falta ou foram criados assim e como pode dar a você uma coisa que nunca conheceram?

No final daquele mês, João se mudara com a família e ao se despedir de Maria, combinaram de sempre se corresponderem.
Porém, com a revolta da separação de seu único amigo, ela passou a ignorá-lo e rasgava todas as cartas enviadas por ele, sem sequer abri-las.

Passados cinco anos, o pai de João fora acometido por uma doença grave causando seu afastamento da fabrica onde trabalhava.

João já com 14 anos, acompanhava-o diariamente ao hospital público e ele mesmo é quem tratava de todas as burocracias impostas pelo sistema de saúde.

Foi cativando o carinho dos funcionários que se admiravam, ver aquele adolescente estatura mediana, olhos expressivos, tentando amenizar o sofrimento, não só de seu pai, quanto aos demais doentes.
Sempre com compreensão, resignação e muito amor e graças a seu esforço conseguiu a internação de seu pai.

Na véspera da morte do seu pai, com muita dificuldade conseguiu manter um pequeno diálogo com o filho:

- Cheguei ao fim, querido filho, sinto não ter conseguido deixar você e sua mãe com estabilidade financeira. O que será de vocês? Só deixarei lembranças desses dias tão sofridos e duros... –um triste pranto o dominou e João o abraçou forte dizendo:
- Pai, o dinheiro é importante sim, porém se vivemos honestamente, um dia chega a nossas mãos. Porém o amor, os diálogos sinceros, nossa amizade, são a melhor herança que nos deixará.

Seu pai estava muito emocionado e feliz agradecia a Deus em ter um filho tão especial.


João depois da morte de seu pai arrumou um emprego durante o dia e estudava a noite, tinha um ideal, ser cirurgião, não por orgulho e sim com o objetivo de amenizar o sofrimento daqueles necessitados assim como seu pai e tantas outras pessoas.

Sua mãe era empregada domestica e fazia questão de voltar para casa todos os dias, para estar com seu filho amado. João chegava a casa normalmente lá pelas 11h30min da noite, moravam numa pequena casa de apenas três cômodos que representava um castelo para eles, já que era própria.

João estava com 18 anos e prestara concurso para a faculdade de Medicina e numa tarde de domingo deitado na rede de seu quintal observava suas sementes mágicas, plantadas logo que foram morar ali, estava cada dia maior, forte, perfumado e harmonioso, notara que algumas não haviam vingado, porém Vida se encarregaria de explicar ou quem sabe um dia se encontraria com Maria.
Sua mãe carinhosamente levou um apetitoso lanche, sentou-se a seu lado e perguntou:

- Meu filho, não se sente revoltado com esta vida tão dura? Ter que trabalhar tão cedo enquanto seus amigos apenas estudam?
- Claro que não minha mãe, eu sou um bom aluno na escola da vida, entendo suas lições. A senhora sabe da historia do rei e seu conselheiro?
- Não filho, conte para sua velha mãe!

- Um dia, o rei e seu conselheiro saíram para caçar, como de habito. O rei errou o tiro e perdeu seu dedo indicador, sendo socorrido por seu velho e leal conselheiro que lhe dizia:
 - Não se desespere meu rei, foi apenas um dedo, Deus sabe o que faz!
- Deus sabe o que faz? Tirar o dedo de um rei, você acha certo?
- Não importa o que eu ache meu rei e sim que Deus sabe o que faz!
- Pois ficarás confinado na masmorra até o fim de seus dias!

Disse o rei enfurecido enquanto o conselheiro de cabeça erguida a caminho da clausura repetia: Deus sabe o que faz!
 O rei revoltado, olhando enojado com a complacência do conselheiro, lhe perguntou:
- Ficará o resto de sua vida confinado e o que me diz?
- Deus sabe o que faz!
O rei cuspiu em sua cara e ordenou que o trancasse na masmorra. Assim que o conselheiro foi confinado.
Anos depois o rei resolveu caçar sozinho, sem seu dedo indicador e sem seu conselheiro. E ao chegar à floresta foi atacado por uma tribo de canibais e gritou:
- Sou rei.
Os canibais nada entendiam, preparavam um enorme caldeirão, despiram-no e vira que lhe faltava um dedo. E o chefe da tribo gritou:
Soltem este infeliz! Falta-lhe um dedo, deve ser leproso!
O rei montou em seu cavalo e saiu galopando sem olhar pra trás.
Chegando ao castelo, ainda apavorado, ordenou que trouxessem o conselheiro. Contou-lhe sobre o incidente e perguntou:
- Como me explica este acontecido, honestamente? Sei que me odeias, afinal sou o responsável por seu confinamento por todos estes anos, Deus sabe mesmo o que faz?
- Claro meu rei! E não tenho porque ter ódio, se eu não estivesse confinado, teria ido com vossa majestade a cassar, a tribo nos encontraria e em meu corpo não falta nada, logo, eu seria devorado pelos canibais. Meu rei passou por um teste de que Deus sabe o que faz!

A mãe de João o olhava e pensava o quanto era nobre seu pequeno filho.

João a cada dia se superava, passara no vestibular e cursava a sonhada Universidade de Medicina, sempre o melhor aluno, querido por todos, amava a vida, a natureza, agradecia todos os dias a visão que tivera com VIDA e pensava no quanto teria para contar!

Os anos se passaram João já estava com 45 anos de idade, um grande cirurgião, casado, vivia numa bonita casa e um quintal plantado com as sementes mágicas.

Dirigia o hospital, o mesmo onde morrera seu pai e já não o competia operar, porém ele amigavelmente fazia questão de participar e muitas vezes orientar em casos graves.
Estava numa tarde olhando através da janela, nos dias difíceis que passara em sua infância, o carinho dedicado por sua mãe que já não mais necessitava trabalhar e lembrou que chegara o momento do encontro com VIDA. E Maria? Onde estaria? Porque jamais respondera suas cartas?
Seus pensamentos foram interrompidos ao ser chamado para uma emergência.
- Com licença Dr.João, precisam de sua ajuda no centro cirúrgico.

Rumou ao centro cirúrgico, fez sua assepsia e enquanto a instrumentadora colocava suas luvas ele perguntou a equipe.
- Do que se trata?
- Ela sofreu um grave acidente bateu com o carro contra uma muralha, está totalmente drogada.
- Santo Deus!

A cirurgia demorou cinco horas, varias costelas fraturadas que por pouco não romperam seus pulmões, foi encaminhada a UTI.

Ao chegar a casa, já amanhecendo, contou a sua mulher sobre a emergência:
- Não entendo como as pessoas se machucam tanto, porque se drogam, porque se viciam. Operei uma senhora esta madrugada, aparenta ter uns 70 anos, estava totalmente drogada.
- Ela estava sozinha?
- Sim, seu estado ainda é muito grave. Vou tomar um banho e voltar ao hospital.

Chegando ao hospital foi direto para a UTI e pediu a enfermeira o prontuário da paciente ao ler seu nome, sentiu o chão saindo de seus pés. Era Maria, totalmente acabada pelas drogas, aparentava 25 anos mais velhos. Ele suspirou e disse: Pobre amiga!

Semanas depois Maria foi transferida a uma enfermaria e já conseguia falar, João se apresentou:
- Lembra-se de mim Maria?
- Foi você quem salvou minha vida, o que quer de mim? Quer meu agradecimento? Se for isso esqueça, porque você não me salvou, prolongou meu sofrimento.
- Não diga isto!
- Quem você pensa que é? Um médico que se acha Deus? Que direito tinha de salvar minha vida? Quando joguei o carro contra aquela muralha, estava certa que ia morrer, porém tinham que me trazer pra cá! Eu te odeio!
- Acalme-se, quando te perguntei se sabia quem eu era, não me referi ao medico e sim ao João, seu amigo que anos atrás fizemos um pacto com a VIDA, lembra?
- Maldita árvore e suas sementes podres, poucas vingaram, são daninhas, rasteiras, espinhentas, venenosas e mal cheirosas, onde nascem vira um pântano, não gostam de luz são horríveis!

João olhava penalizado, pegou a mão de Maria e disse:
- Querida amiga, você se lembra que a VIDA nos convocou a nos encontrarmos com ela ao completarmos 45 anos?Porque não vamos até ela? Com certeza ela nos dará a devida explicação.
- Olhe pra mim João, estou acabada, desde nova a vida sempre me maltratou, meus pais me expulsaram de casa aos dezoito anos, quando descobriram que eu já não mais freqüentava o colégio, gastava todo dinheiro de minha mesada com drogas, roubava, no inicio as coisas de casa pra sustentar meu vício. Quando me vi na rua me prostituí vendendo meu corpo. Até que conheci um traficante, nos apaixonamos e vivemos juntos por 15 anos, até o ano passado, quando um pai desesperado ao vir seu único filho de apenas 14 anos de idade morrer de overdose, soube que o fornecedor era meu companheiro, invadiu nossa casa armado, disparou contra o peito de meu marido e restando uma bala ele atirou contra sua própria cabeça.
Este infeliz acabou com sua vida e ainda a do homem que me deu carinho e me tirou da prostituição.
Desolada virei peregrina viajando sem destino tentando esquecer esta vida miserável e injusta, deste mundo egoísta. Porém as lembranças do passado não me abandonam em meu coração aloja-se um enorme ódio de todos e pena de mim. Não sei o que fiz para sofrer tanto assim. Por que Deus me odeia tanto João?
- Deus é pura bondade querida amiga, somos nós mesmos que nos punimos, não somos os únicos sofredores, te contarei alguns fatos que presenciei neste hospital.

João narrou historias verdadeiras presenciadas por ele ao longo de sua vida, porém Maria ouvia distante mergulhada em seu sofrimento. Percebendo a indiferença, ele entendeu que não adiantariam argumentos que melhorasse sua alta estima. Afinal levara a vida por caminhos tortuosos, não foi forte o suficiente para enxergar as armadilhas do mundo, caiu num abismo, foi ao fundo do poço. Precisava de um tempo para emergir e mais que nunca de amor.
Ele acreditava que havia uma sementinha alojada em cada um de nos e que um dia, não importando a idade, sexo, cor, religião ou classe social, despertaríamos nossa consciência para a existência. Quanto a Maria, somente VIDA poderia tirar-lhe daquela profunda depressão.


... O reencontro com VIDA...


Após alguns meses João conseguiu convencer a Maria a reencontrar-se com VIDA.
Tantos anos se passaram e lá estava VIDA, mais velha, linda, irradiando luz e exalando um suave perfume.
João emocionado abraçou a Maria, esta imóvel com os olhos estatelados não retribuiu, apenas estendeu a mão para que ele a segurasse.
João ajoelhou-se aos pés de VIDA e soluçando murmurou:
- Querida VIDA perdoe meu pranto estou muito emocionado, sinto como se estivera morto e prestando conta de minha vida.

Maria com olhar de censura falou:

- Você enlouqueceu mesmo, não vê que tudo isto não passa de uma ilusão de duas crianças? Quem não percebe que esta é uma árvore velha que jamais falou, sequer percebe nossa presença e não passa de um vegetal. Francamente não sei onde eu estava com a cabeça quando aceitei vir até aqui. Vou embora.

De repente da arvore caíram pingos como se fossem lágrimas. E João comovido falou:
- Ela esta chorando! Por favor, VIDA não chore, não fique triste, Maria é revoltada e amarga, com tudo e com todos.
- Não estou triste minha criança, choro de felicidade. Feliz  por acreditarem em mim.


...O esclarecimento...

- Eu, a árvore, simboliza a vida, minhas sementes são o caminhar, a forma de conduzirmos a nossa vida dependerá do nosso caráter, sendo assim fundamental para nossa evolução. Você João só semeou as boas sementes. Quando perdeu seu pai aos 14 anos de idade, não se revoltou, colheste a semente da compreensão; ao trabalhar para sustentar sua mãe, a maturidade; quando sua mãe se lamentava ao vê-lo tão cedo trabalhar, a sabedoria, sempre com palavras e gestos de amor; ao estudar, a força; ao se formar, a garra; ao salvar vidas principalmente da Maria, colheu a mais valiosa delas, a semente do amor.
Deve ter notado que algumas não vingaram, pois esta você não as plantou e sim Maria.
Ela teve seus pais de classe media alta, nunca precisou trabalhar tudo que pedia ou sonhava recebia de seus pais. Porém nesta família não havia amor, seus pais só pensavam em enriquecer e achavam que cobri-la de presentes supria a falta de diálogos e carinho. Só que estas coisas são matérias e não fundamentais.
Vejam no que deu! Uma jovem inocente, carente de amor e compreensão, sem orientação, cai no mundo das drogas, colhe sua primeira semente: a ignorância; ao roubar, a ganância; ao sair de casa expulsa pelos pais, o ódio; ao se prostituir, o rancor; ao se unir a um contraventor, a inveja; ao tentar suicídio, a autopiedade; e agora ao me destratar, a vingança. Pois em sua cabeça passa que eu fui a culpada por fazê-la viver desta forma.
Não minha querida Maria, não culpe a VIDA por colher as sementes podres. Olhe dentro de seu coração e veja que existe uma sementinha secando, precisando ser regada, nunca é tarde! Cuide dela, regue-a todos os dias, horas, minutos e segundos, não viva no passado, simplesmente pense no que já passaste, limpe sua plantação daninha, elimine-a, queime-a, deixe que as boas sementes floresçam e tenha certeza de uma coisa: Nunca é tarde para recomeçar! Não tenha vergonha de encarar seus erros e sim se orgulhe em poder enxergar e corrigi-los, não tenha medo nem vergonha de amar e saber perdoar.

Maria recapitulou toda sua vida e chorou compulsivamente, levantou a cabeça e os braços para o céu e perguntou a VIDA:
- Como regar esta semente?
- Mergulhe profundo em seu interior, reflexione, perdoe aqueles que culpam por seus deslizes, converse com Deus.

Maria abraçou a João e a VIDA, saiu caminhando com passos largos e saltitantes até que encontrou uma bifurcação com dois caminhos, parou, observou que um deles era florido e alegre o outro escuro e triste parecidos com suas sementes e pensou:
- Nunca é tarde para recomeçar. – E rumou pelo caminho das flores!

Esta é a lenda da VIDA e em toda lenda sempre tem um final feliz.
Porque não tornarmos nossas vidas em lendas?












Capítulo treze


A Realização do Sonho



Eu ia completar 20 anos e tia Regina 55; nossos aniversários são no mesmo mês, no ano anterior ela havia lançado o livro prometido a minha avó o qual obteve grande êxito e na noite de meu aniversario, foi o lançamento do seu terceiro livro.
O evento foi numa pequena livraria no centro da cidade. Ela estava linda, sentada a uma mesa autografando e uma enorme fila, quando avistei um homem alto, corpo atlético, calças jeans, camisa de linho azul claro, cabelos grisalhos e encaracolados, olhos verdes, pele bronzeada e um livro nas mãos.
Corri para perto dela, eu não estava sonhando, era real! Não podia perder o mínimo detalhe, minha ansiedade era tão grande que podia escutar as batidas de meu coração. Ele se aproximou dela e disse:
-Regina Magalhães?
- Sim! – Ela respondeu, com os olhos arregalados, enquanto levantava-se lentamente arrastando a cadeira para trás, estendendo a mão para cumprimentá-lo.
 - Sou Juan Carlos, também escritor. Queria dizer-te que me encantou seu romance e o trouxe para que me autografe.
Foi o que pude entender e imaginar, pois ele falava espanhol!
- Meu Deus, você existe! Só falta o beijo!
Juan Carlos, sorrindo beijou seu rosto e a abraçou fortemente, parecia que os dois se conheciam há muitos anos.


Um mês depois se casaram. A cerimônia foi a mais linda que presenciei, mística.
Alugaram uma casa de festas, na Lagoa Rodrigo de Freitas, num grande salão e a decoração feita por tia Regina.
 O que não poderia deixar de ser. Afinal ambos eram exotéricos!
Logo na entrada havia muitas plantas, flores e cristais posicionados ao norte, representando o elemento Terra.
Ao leste, incensos e luzes, elemento Ar.
Ao oeste uma linda fonte, elemento Água.
E ao sul chamas coloridas, elemento fogo. 

No centro do salão, rodeado pelos quatros elementos, foi erguido um altar que era uma tenda branca, decorada com camélias e jasmins.
Sob este, um conjunto de lâmpadas com as sete cores primárias: vermelho, laranja, amarela, verde, azul índigo e violeta.

Eu sempre convivi com sua alegria contagiante, porém naquele dia estava muito emocionado.
Ela estava linda! Embora seus 55 anos de idade aparentasse 40! Vestia um longo de renda azul celestial, sapatos forrados com o mesmo tecido do vestido, cabelo preso com um arranjo de minúsculas pedrinhas de cristal, azul é claro!
Em suas mãos um arranjo de flores do campo!

Sara foi à dama de honra, junto com o casal de Roberta.

Entrou com passos lentos e chorava muito. Juan Carlos a esperava no altar, ao lado de minha avó. Estava todo de branco realçando sua pele bronzeada e seus olhos verdes.

A cerimônia foi mágica!O oficiante traçou um círculo em volta do altar e disse:
-“Hoje chegam juntas a este círculo mágico pedindo a benção dos Antigos para sua união. Que seja este um círculo um local de amor, honra e paz.”

E convocou aos noivos a dizerem as seguintes palavras:
-Agora não sentiremos nenhuma chuva, pois um será o abrigo do outro.
Agora não sentiremos frio, pois um será o calor do outro. E a partir de agora seremos dois corpos, porém uma só vida.



 No final estávamos todos chorando!

Outro momento mágico foi quando Juan Carlos
Pegou uma taça de vinho, tomou um gole e ofereceu a Tia Regina, depois ele envolveu a taça num lenço e quebrou com os pés.
O círculo mágico foi apagado, eles se beijaram e saíram abraçados. O noivo com sua linda voz de locutor falou:
- Peço a todos alguns minutos de atenção, serei breve, prometo isso não é um discurso.

Todos nós riamos e ele falou:

- Conheci Regina, pessoalmente, a pouco mais de um mês. Apaixonei-me por ela, quando li seu livro á um ano. Hoje a conhecendo realmente, estou mais apaixonado.
Sou o homem mais feliz do mundo, sabendo que faço parte de seus sonhos...

Tia Regina emocionada apertou minha mão, enquanto Juan Carlos continuava seu discurso e sussurrando em meu ouvido, murmurou:
- Não me belisque, porque se este for um sonho, jamais quero despertar!




















Epílogo




Quanta felicidade, eu senti, ao ver seu sonho realizado. Ela provou que se queremos muito alguma coisa, sonhe, sonhe muito, idealizando-o, planejando-o dando condições para sua realização! Porque somos todos filhos de Deus, Ele é pura luz e bondade e só deseja nosso bem.
Dizia que temos que nos amar para poder doar amor.

E o bem é a felicidade, pensar sempre positivo, viver sem ódio em nossos corações, ser ambicioso e não invejoso, ser tolerante e não passivo e submisso. Ser consciente de que colhemos o que semeamos.

Seu sonho era o verdadeiro amor, ser amada, encontrar sua alma gêmea, ajudar ao próximo e poder proporcionar uma vida melhor para toda a humanidade.

Terminado o discurso eles se beijaram longamente!
Fazendo-nos lembrar de quando Tia Regina falava dele anos atrás.

Onde está tia Regina agora?
- Viajando pelo mundo, completou 68 anos de idade, eles montaram uma clinica de reabilitação para crianças e adolescentes, conseguem ajudar a muitos carentes e estão se expandindo por todo o mundo.
Eles conseguem manter este verdadeiro sonho com vendas de livros e palestras Mundiais.
Porque política e comércio nunca fizeram parte de seus sonhos.

OH! Quantas saudades de minha tia Regina.



FIM
                     






 Fazendo-nos lembrar de quando Tia Regina falava dele anos atrás.

Onde está tia Regina agora?
- Viajando pelo mundo, completou 68 anos de idade, eles montaram uma clinica de reabilitação para crianças e adolescentes, conseguem ajudar a muitos carentes e estão se expandindo por todo o mundo.
Eles conseguem manter este verdadeiro sonho com vendas de livros e palestras Mundiais.
Porque política e comércio nunca fizeram parte de seus sonhos.

OH! Quantas saudades de minha tia Regina.



FIM
                     








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